CAPÍTULO 1 — A FESTA

A casa da Beck não era exatamente uma casa.

Era uma mansão.

Isolada o suficiente pra ninguém reclamar do som alto, mas perto o suficiente da cidade pra todo mundo querer estar ali. Luzes roxas e laranjas iluminavam o jardim, teias artificiais pendiam das árvores, e uma névoa baixa — provavelmente máquina de fumaça — cobria o chão como se o lugar inteiro estivesse respirando alguma coisa viva.

A música pulsava forte.

E Beck, claro, estava no centro de tudo.

Vestida como uma espécie de demônio futurista — chifres metálicos, maquiagem impecável em tons neon e um casaco preto com detalhes em LED — ela observava tudo com um meio sorriso, braços cruzados.

— Eu falei que ia ser a melhor festa do ano — disse ela, sem olhar pra ninguém específico.

Letícia, ao lado dela, revirou os olhos.

Fantasiada de caçadora pós-apocalíptica, com um taco de beisebol cheio de spikes falsos, respondeu:

— Se der problema, a culpa é tua. Eu só vim pela bebida.

— E pelo caos — Beck completou.

— Principalmente pelo caos.

As duas trocaram um olhar cúmplice.

E aí a porta abriu com força.

— CHEGAMOS!

Miguel entrou tropeçando no próprio pé, vestindo uma fantasia de fantasma glitchado — tipo um lençol tradicional, mas cheio de luzes piscando aleatoriamente e um óculos que dava efeito de distorção.

Atrás dele vinha Fael, vestido de anjo caótico — asas meio bagunçadas, auréola torta e glitter demais.

— Eu falei pra você não correr — Fael disse, segurando o riso.

— Eu não corri, eu deslizei emocionalmente.

— Isso nem faz sentido.

— Faz sim, você que não sente as coisas.

Tina entrou logo depois, impecável como sempre.

Fantasiada de socialite vampira, com um vestido vermelho absurdo de caro e um copo na mão que ela provavelmente pegou antes mesmo de entrar.

— Beck, amor — ela disse, beijando o ar perto do rosto dela — se essa festa for ruim eu vou falar mal de você por pelo menos três meses.

Beck sorriu.

— Então reza pra ser boa.

Eduardo surgiu atrás dela, vestido de cientista maluco digital — jaleco cheio de QR codes e óculos com tela.

— Eu trouxe um negócio.

— Não — Letícia respondeu automaticamente.

— Você nem sabe o que é.

— Se veio de você, já é um problema.

— É só uma experiência social.

— PIOROU.

Do outro lado da sala, Luani entrou de mãos dadas com Davy.

Ela estava vestida de fada etérea, com tons suaves e brilhantes, enquanto Davy parecia um detetive noir moderno, com sobretudo e tudo.

— Tá sentindo isso? — Luani disse, olhando ao redor.

Davy arqueou a sobrancelha.

— Música alta?

— Não… tipo… uma energia estranha.

— Amor, é uma festa de Halloween.

— Mesmo assim…

Ele apertou a mão dela.

— Se alguma coisa estranha acontecer, eu descubro. Relaxa.

— Eu sei que descobre — ela sorriu — é por isso que eu tô calma.

Perto da escada, Andressa encostava na parede.

Fantasiada de bruxa contemporânea, toda de preto, maquiagem pesada e olhar afiado.

Ruan apareceu ao lado dela, vestido de palhaço glitch, com maquiagem distorcida e roupas assimétricas.

— Você tá bonita — ele disse, casual.

— Eu sei.

— Convencida.

— Realista.

Ele riu.

— Vai ficar aí julgando todo mundo ou vai curtir?

— Tô curtindo.

— Você parada?

— Tô analisando.

— Perigoso isso.

Ela finalmente olhou pra ele.

— Mais perigoso é você.

Silêncio curto.

Um sorriso leve dele.

E então—

Mais ao fundo, longe da música mais alta, Emerson estava sentado.

Fantasiado de observador mascarado — uma roupa simples, escura, com uma máscara branca lisa.

Vitus encostava na parede ao lado.

— Você sempre faz isso — Vitus disse.

— O quê?

— Fica quieto… olhando.

— Alguém precisa olhar.

— E o que você tá vendo?

Emerson demorou alguns segundos pra responder.

— Gente demais… fingindo ser outra coisa.

Vitus riu baixo.

— É Halloween, gênio.

— Não é disso que eu tô falando.

Eduardo apareceu do nada, se jogando entre eles.

— EU TENHO UMA IDEIA.

— Isso nunca é bom — Vitus disse.

— A gente devia fazer um jogo.

— Não — Emerson respondeu, direto.

— Sim — Eduardo ignorou — tipo… um jogo de verdade. Mistério. Assassinato. Personagem secreto.

Vitus cruzou os braços.

— Tem gente suficiente pra dar merda.

Eduardo sorriu.

— EXATAMENTE.

Do outro lado da sala, Beck levantou o copo.

— ATENÇÃO!

A música abaixou um pouco.

Todos olharam.

— Já que vocês vieram até aqui… vamos fazer isso direito.

Letícia já começou a rir.

— Lá vem.

Beck continuou:

— Tem um jogo rolando hoje.

Um silêncio curioso se espalhou.

— Um de vocês… — ela disse, olhando lentamente ao redor — vai ser o assassino.

Miguel arregalou os olhos.

— EU SABIA QUE IA TER MORTE.

Fael puxou ele.

— É um jogo, calma.

Beck sorriu… mas dessa vez, havia algo diferente.

— Talvez.

Um silêncio estranho caiu por um segundo.

Quase ninguém percebeu.

Mas Luani sentiu.

E Emerson…

…também.

Ele olhou direto pra Beck.

Como se estivesse tentando entender algo que ainda não fazia sentido.

E pela primeira vez desde que chegou…

ele pareceu desconfortável.

CAPÍTULO 2 — O JOGO COMEÇA

O burburinho cresceu imediatamente depois do anúncio.

Não era só animação — era curiosidade, desconfiança, excitação. Algumas pessoas riram, outras começaram a se juntar em grupos menores, já criando teorias como se aquilo fosse mais sério do que deveria ser.

E talvez fosse.

Beck desceu lentamente do pequeno degrau onde estava, ainda segurando o copo, enquanto Letícia permanecia ao lado, observando tudo com aquele olhar de quem já esperava confusão.

— Explica direito isso aí — Letícia disse, cruzando os braços. — Porque dependendo do que você inventou, eu vou embora antes de começar.

— Relaxa — Beck respondeu, calma demais. — É simples.

Eduardo já estava praticamente vibrando.

— Eu posso explicar — ele disse, levantando a mão como se estivesse numa sala de aula.

— Não — três pessoas responderam ao mesmo tempo.

Ele ignorou.

— Cada um recebe um papel. Nesse papel tem uma função. Pode ser inocente… ou pode ser o assassino.

Miguel abriu a boca, lentamente.

— Tipo… Among Us?

Eduardo apontou pra ele.

— EXATAMENTE, só que sem nave espacial e com mais drama.

— E sem botão de emergência — Letícia completou.

— Ainda.

Fael olhou ao redor, animado.

— Eu gostei. Eu vou ser inocente, com certeza. Eu tenho cara de inocente.

— Você tem cara de quem morreria primeiro — Tina disse, tomando um gole da bebida.

— Isso foi específico demais.

— Eu observo padrões.

Ruan se aproximou, apoiando o braço no ombro de Eduardo.

— E como que mata alguém? — ele perguntou, com um sorriso enviesado.

— O assassino vai ter uma forma de eliminar alguém sem ser visto — Eduardo respondeu, agora mais sério. — E a cada rodada, a gente para e tenta descobrir quem é.

— Rodada? — Davy franziu o cenho. — Então é tipo… contínuo?

— Isso.

— E quem morre sai do jogo?

Beck respondeu dessa vez:

— Sai… mas continua na festa.

— Ah, então ninguém realmente morre — Miguel disse, aliviado.

Um silêncio pequeno, quase imperceptível, caiu.

Beck deu um meio sorriso.

— É.

Luani desviou o olhar.

Não foi a resposta.

Foi o jeito.

— Tem alguma coisa errada — ela murmurou.

Davy olhou pra ela.

— O quê?

— Não sei explicar… só—

— Você sempre sente essas coisas — ele disse, tentando tranquilizar. — Mas é só um jogo.

— Eu sei.

Mas ela não parecia convencida.

Do outro lado da sala, Andressa observava tudo em silêncio.

Ruan olhou pra ela de canto.

— Você tá pensando demais.

— Eu sempre penso demais.

— E qual é a teoria?

Ela demorou um pouco.

— Isso não foi ideia do Eduardo.

— Claro que foi.

— Não completamente.

Ruan ergueu uma sobrancelha.

— Você acha que a Beck tá escondendo alguma coisa?

— Eu acho que ela quer alguma coisa.

— E o que ela quer?

Andressa olhou direto pra Beck, que naquele momento distribuía envelopes pretos para alguns convidados mais próximos.

— Controle.

Enquanto isso, Emerson continuava sentado, segurando o envelope que tinha acabado de receber.

Ele ainda não tinha aberto.

Vitus percebeu.

— Você não vai ver?

— Já sei o suficiente.

— Não sabe.

— Sei que isso não é só um jogo.

Vitus soltou um suspiro leve.

— Você sempre vai pro pior cenário.

— E normalmente eu tô certo.

— Normalmente você é paranoico.

Emerson virou o envelope nas mãos.

— Olha em volta.

Vitus olhou.

Gente rindo.

Gente bebendo.

Gente flertando.

Nada fora do normal.

— Eu só vejo uma festa — ele disse.

— Exatamente — Emerson respondeu. — Boa demais.

Vitus franziu o cenho.

Mas antes que pudesse responder, Eduardo apareceu de novo.

— ABRAM OS ENVELOPES!

A energia mudou.

Todo mundo começou a rasgar os papéis ao mesmo tempo, alguns rindo, outros tentando esconder o que tinham recebido.

Miguel abriu o dele e arregalou os olhos.

— Eu… não entendi.

Fael se aproximou.

— O que tá escrito?

— Nada.

— Como assim nada?

— Tipo… nada mesmo.

Fael pegou o papel.

— Isso aqui é um… círculo?

— É.

— O que isso significa?

— Eu não sei.

— Talvez você seja inútil — Tina disse, passando por eles.

— Isso foi gratuito.

— Eu tô jogando psicologicamente.

— Você nem sabe jogar.

— Eu invento regras.

Perto deles, Letícia olhava o papel dela com uma expressão de puro tédio.

— Eu sou inocente. Que merda.

Eduardo apareceu atrás dela.

— Isso é exatamente o que um assassino diria.

Ela virou pra ele.

— Se eu fosse o assassino, você já tava no chão.

— Eu acredito.

Davy analisava o papel com atenção.

— Interessante.

Luani encostou nele.

— O que foi?

— Só… instruções.

— Tipo o quê?

— Observar. Esperar. Não agir impulsivamente.

Ela sorriu.

— Combina com você.

— Eu espero que sim.

Mas havia algo no olhar dele.

Algo calculando.

Enquanto isso, Andressa abriu o papel e não demonstrou reação.

Ruan tentou espiar.

— E aí?

— Nada demais.

— Mostra.

— Não.

— Suspeito.

Ela guardou o papel no bolso.

— Você já é suspeito só por existir.

— Isso é preconceito.

— Isso é estatística.

Os dois trocaram um olhar mais longo dessa vez.

E pela primeira vez, nenhum dos dois sorriu.

No canto da sala, Emerson finalmente abriu o envelope.

Ele leu.

E ficou completamente imóvel.

Vitus percebeu na hora.

— O que foi?

Emerson não respondeu.

Seus olhos estavam presos no papel.

— Emerson.

Ainda silêncio.

Vitus puxou o papel da mão dele.

Leu.

E franziu o cenho.

— Isso… não faz sentido.

— Eu falei — Emerson disse, finalmente.

— Isso aqui não é uma função.

— Eu sei.

Vitus olhou de novo.

— “Observe o fim antes que ele comece.”

Ele levantou os olhos.

— Que tipo de instrução é essa?

Emerson respirou fundo.

— Um aviso.

— De quem?

Emerson olhou ao redor.

A música voltou a subir.

A festa retomava o ritmo.

Mas agora…

Parecia diferente.

— Eu acho que… — ele começou, baixo — alguém aqui não tá jogando.

Vitus ficou em silêncio.

E pela primeira vez…

ele não teve resposta.

Do outro lado da sala, Beck observava tudo.

Imóvel.

Atenta.

Como se estivesse esperando alguma coisa acontecer.

E talvez estivesse.

Porque, sem que ninguém percebesse naquele momento…

uma das portas do corredor lateral…

se abriu sozinha.

Devagar.

Sem barulho.

Como um convite.

Ou uma armadilha.

CAPÍTULO 3 — A CASA RESPIRA

A música já tinha voltado com tudo.

Grave batendo no peito, luz piscando, gente dançando como se não existisse amanhã. O jogo… ainda estava lá, mas já começava a se misturar com a festa de um jeito meio perigoso.

Era difícil dizer onde terminava a brincadeira.

E onde começava outra coisa.

Miguel já tava no terceiro copo de alguma coisa que ele não fazia ideia do que era.

— Vey… isso aqui é bom, mas tá me deixando estranho — ele disse, apoiando o braço no ombro do Fael.

— Você sempre é estranho — Fael respondeu, rindo. — Isso aí só tá potencializando.

— Eu tô falando sério, bb… tipo… eu sinto que eu tô dentro de um filme.

— Você sempre acha isso também.

— Porque eu sou o protagonista.

Tina, que tava do lado, soltou uma risada curta.

— Se isso aqui fosse um filme, você já tinha morrido nos primeiros 15 minutos.

— Que isso, Tina, credo.

— É estatística — ela respondeu, dando de ombros. — Gente burra morre primeiro.

— Eu não sou burro.

— Você perguntou se gelo era sólido ontem.

— ERA UMA QUESTÃO FILOSÓFICA.

Eduardo apareceu do nada, já entrando no assunto:

— Na verdade, gelo é um estado físico da água—

— CALA A BOCA, EDUARDO — três pessoas falaram ao mesmo tempo.

Do outro lado da sala, Letícia tava encostada numa mesa, girando o copo entre os dedos enquanto observava o movimento.

Beck chegou perto.

— Tá analisando ou julgando?

— Os dois — Letícia respondeu. — Aquela ali já caiu três vezes e ninguém percebeu.

— Festa boa é assim.

— Festa boa não tem gente fingindo demais.

Beck deu um meio sorriso.

— Você tá incomodada?

Letícia deu uma risadinha pelo nariz.

— Eu? Nunca. Só acho que tem gente aqui que não devia ter vindo.

— Tipo quem?

Letícia nem precisou responder.

Porque, naquele exato momento—

— AI, GENTE, VOCÊS NÃO ACREDITAM—

A voz cortou o ambiente como uma faca.

Sara Franciele.

Ela entrou no meio da sala como se fosse dona do lugar.

Fantasiada de influencer zumbi, com maquiagem impecável (óbvio) e um celular na mão gravando tudo.

— Eu JURO, essa festa tá meio básica, mas dá pra salvar — ela dizia, olhando pra câmera. — A decoração é ok, a vibe é meio… experimental—

Letícia virou o rosto devagar.

— Ah não, vey.

Tina também já tinha visto.

— Não acredito que ela veio.

Miguel piscou, tentando focar.

— Quem?

— Sara Franciele — Tina respondeu, com um sorriso falso. — Aquela ali que ama aparecer.

— Ela não foi convidada — Letícia disse, já largando o copo.

Beck não respondeu de imediato.

Só observou.

Sara continuava andando, falando alto, rindo exagerado, cumprimentando gente como se fosse íntima.

— Amiga, essa festa tá babado, mas eu faria melhor — ela disse pra alguém aleatório.

— Ela tá se achando MUITO — Fael murmurou.

— Ela sempre se acha — Eduardo completou. — Isso é padrão comportamental dela.

— Eu vou lá — Letícia disse, já andando.

— Letícia— Beck chamou.

Mas ela já tinha ido.

Passos firmes.

Sem hesitar.

Ela parou bem na frente da Sara.

— Você tá perdida?

Sara virou devagar, analisando ela de cima a baixo.

— Letícia… né?

— Infelizmente você sabe meu nome.

— Relaxa, bb, eu sei o nome de todo mundo relevante.

Letícia deu um sorriso sem humor.

— Então você devia saber que você não foi convidada.

Um pequeno silêncio se formou ao redor.

Gente já começando a olhar.

Sara inclinou a cabeça, ainda sorrindo.

— Amor… festa grande assim não precisa de convite.

— Precisa sim.

— Ai, vey, não surta. Eu só vim dar uma movimentada.

— Ninguém pediu.

— Mas todo mundo gosta.

— Ninguém aqui gosta de você.

Direto.

Sem filtro.

Sara riu.

Mas foi uma risada diferente.

— Você fala isso porque?

— Porque é verdade.

— Ou porque você ainda tá presa naquela história ridícula?

O clima mudou.

Na hora.

Letícia deu um passo pra frente.

— Cuidado com o que você fala.

— Ou o quê?

— Ou você vai descobrir.

Sara aproximou também.

— Descobrir o quê, bb? Que você late mas não morde?

Tina apareceu do lado, já puxando Letícia levemente.

— Vey, deixa essa menina.

— Não, deixa — Letícia respondeu, sem tirar os olhos da Sara.

Davy, mais atrás, observava tudo em silêncio.

Luani segurou o braço dele.

— Isso não vai terminar bem.

— Eu sei.

— Faz alguma coisa.

— Ainda não.

Enquanto isso, Ruan assistia com um sorriso leve.

— Eu gosto dela — ele disse pra Andressa.

— Eu não — Andressa respondeu, seca.

— Ela movimenta.

— Ela provoca.

— Mesma coisa.

— Não.

Ruan olhou pra ela.

— Você quer ir lá também, né?

— Quero.

— Então vai.

Andressa não foi.

Mas ficou olhando.

Atenta.

Muito atenta.

No meio do confronto, Sara deu um passo pra trás, levantando as mãos.

— Ai, gente, relaxa… é Halloween, vamos viver, esquecer o passado—

— Eu não esqueço — Letícia disse.

— Problema seu.

Sara deu um sorriso provocador.

— Mas fica tranquila… eu não vim por você.

Silêncio.

Letícia estreitou os olhos.

— Então veio por quem?

Sara olhou ao redor.

Devagar.

Como se estivesse escolhendo.

E então disse:

— Pelo jogo.

Um arrepio leve passou por algumas pessoas.

Eduardo franziu o cenho.

— Como você sabe do jogo?

Sara deu de ombros.

— Todo mundo sabe, amor.

— Não — Emerson disse, baixo, mais ao fundo.

Ninguém ouviu.

Mas Vitus ouviu.

E isso bastou.

Sara já tava se afastando, voltando a andar pela festa como se nada tivesse acontecido.

Mas agora…

Todos estavam olhando.

E não era admiração.

Era outra coisa.

Algo entre irritação…

e incômodo.

Letícia voltou, ainda tensa.

Tina entregou outro copo pra ela.

— Bebe isso antes que você mate alguém de verdade.

— Eu não duvido — Eduardo disse.

— Cala a boca, Eduardo.

Ela bebeu.

Respirou fundo.

— Eu odeio ela.

— A gente sabe — Miguel disse.

— Não, tipo… de verdade.

Silêncio curto.

Fael olhou pra ele.

— Vey… você também odeia ela, né?

Miguel hesitou.

— Eu…

— Fala.

— Tá… odeio.

— Todo mundo odeia — Tina disse, simples.

Luani apertou mais a mão de Davy.

— Isso não é bom.

— Eu sei.

— Tá todo mundo com motivo.

Davy não respondeu.

Porque ele também sabia.

E não era só impressão.

Era fato.

Do outro lado da casa, no corredor lateral…

a porta que tinha se aberto antes…

continuava aberta.

Escura.

Silenciosa.

E agora—

Sara estava andando na direção dela.

Sozinha.

Ainda mexendo no celular.

Ainda falando com a câmera.

— Gente, eu vou explorar aqui porque aparentemente tem umas salas meio estranhas nessa casa—

Ela entrou no corredor.

A música ficou mais distante.

A luz… mais fraca.

— Se eu morrer, já sabem quem foi — ela riu sozinha.

E desapareceu na escuridão.

Na sala principal…

ninguém percebeu na hora.

Mas Emerson levantou a cabeça.

Como se tivesse sentido alguma coisa.

— Vitus…

— Hm?

— Você viu?

— O quê?

Emerson ficou em silêncio por alguns segundos.

Olhando fixo pro corredor.

— Nada.

Mas não era nada.

E, pela primeira vez desde o começo da festa…

ele parecia assustado de verdade.

CAPÍTULO 4 — QUANDO A BRINCADEIRA PARA (VERSÃO FINAL)

No começo… ninguém percebeu.

A música continuava alta, as luzes cortando o escuro em tons roxos e vermelhos, gente rindo alto demais, como se aquilo fosse só mais uma noite qualquer.

E era exatamente isso que tornava tudo estranho.

Porque nada parecia fora do lugar.

Ainda.

— Vey, cadê aquela garota mesmo? — Miguel perguntou, olhando por cima da multidão.

— Quem? — Fael respondeu, distraído.

— A Sara.

Tina deu um gole no copo, tranquila.

— Deve estar em algum canto gravando vídeo.

— Ou falando mal da festa — Letícia completou, meio rindo.

— Provável — Eduardo disse, encostando na mesa. — Mas ela não iria sumir sem aparecer depois. Não é o estilo dela.

Ruan olhou ao redor.

— Sumiu mesmo?

— Faz um tempinho já — Miguel respondeu.

— Estranho.

Luani, que estava mais quieta até então, falou baixo:

— Tem alguma coisa errada.

Davy olhou pra ela.

— O quê?

— Não sei… só… estranho.

Ele franziu o cenho, mas não brincou.

— Ela foi pra onde?

Miguel respondeu:

— Acho que pro corredor lá.

Do outro lado da sala, Emerson já estava de pé.

Vitus percebeu na hora.

— Você vai lá, né?

— Ela não voltou.

— E daí?

— E daí que ninguém percebeu.

Vitus soltou um ar pelo nariz.

— Tá bom… eu vou contigo.

Sem anunciar, os dois começaram a andar.

— Ih, lá vão eles — Ruan comentou.

— Pra onde? — Fael perguntou.

— Corredor.

Letícia já largou o copo.

— Eu vou lá também.

— Claro que vai — Tina disse, indo junto.

Davy passou a mão no cabelo, olhando na mesma direção.

— Melhor ver o que é isso.

Luani assentiu.

— É.

— Gente… isso tá com cara de problema — Miguel disse.

— Então a gente vai — Fael respondeu, simples.

— Você não ajuda.

— Eu sei.

Eduardo hesitou por um segundo.

Depois foi.

— Se der ruim, pelo menos a gente entende o que aconteceu.

O grupo foi se formando quase sem perceber.

Como se fosse automático.

O corredor era outro mundo.

Mais escuro.

Mais frio.

A música da festa ficava distante, abafada pelas paredes.

— Eu já não gostei — Miguel murmurou.

— Fica tranquilo — Fael respondeu, mas ficou mais perto dele.

Na frente, Emerson estava parado.

Olhando pra uma porta aberta.

Davy chegou ao lado dele.

— Foi aí?

Emerson assentiu.

Eduardo falou mais alto:

— Sara? Para de se esconder.

Silêncio.

Tina cruzou os braços.

— Se isso for gracinha, eu vou embora.

Nada.

Letícia respirou fundo.

— Tá.

E entrou.

Os outros foram atrás.

A sala era grande.

Escura.

Móveis antigos cobertos com lençóis.

O ar pesado.

— Isso aqui tá estranho — Davy disse, baixo.

— Tá mesmo — Luani respondeu.

— Sara, sério, já deu — Letícia falou, andando mais pra dentro.

Emerson caminhava devagar.

Observando.

E então ele parou.

— Não.

Baixo.

Vitus já ficou tenso.

— O que foi?

Emerson não respondeu.

Só apontou.

E todo mundo olhou.

No fundo da sala.

No chão.

Sara Franciele.

Por um segundo…

ninguém reagiu.

— Ela caiu? — Miguel perguntou.

Letícia se aproximou.

Devagar.

E parou.

— Não.

Agora a voz dela estava diferente.

Davy passou por ela.

Abaixou.

Checou rápido.

Pulso.

Respiração.

Demorou alguns segundos.

Mas não precisava.

Ele levantou o olhar.

Sério.

— Ela morreu.

Silêncio.

Total.

— Para… — Tina disse. — Isso não tem graça.

— Não é brincadeira — Davy respondeu.

Miguel recuou um passo.

— Vey… isso… isso é do jogo?

Ninguém respondeu.

Porque era óbvio.

Não era.

Letícia ficou parada, olhando.

O maxilar travado.

— Quem fez isso?

Eduardo passou a mão no rosto.

— Isso acabou de dar muito ruim.

Ruan olhava fixo.

Sem sorriso.

— Isso não foi acidente.

— Cala a boca — Andressa disse, mas sem agressividade. Só tensa.

Luani respirava mais rápido.

— Eu falei que tinha algo errado.

Davy ficou em silêncio dessa vez.

Pensando.

Ligando coisas.

Vitus olhou pra Emerson.

— Você sabia.

Emerson respondeu baixo:

— Não… mas eu senti.

O silêncio voltou.

Mais pesado.

Mais real.

Porque agora…

não era mais uma festa.

Nem um jogo.

Era um assassinato.

E todo mundo ali…

tinha visto Sara minutos antes.

Todo mundo ali…

tinha motivo.

E o pior—

alguém daquele grupo…

sabia exatamente o que aconteceu naquela sala.

E ainda estava ali.

No meio deles.

Observando.

CAPÍTULO 5 — NINGUÉM SAI

Ninguém se mexeu.

Nem por um segundo.

Como se qualquer movimento fosse… confirmar aquilo.

O corpo da Sara continuava no chão, iluminado pela própria tela do celular, ainda gravando. A luz tremida refletia nos rostos deles, deixando tudo mais estranho, quase irreal.

A festa continuava lá fora.

Dava pra ouvir o grave.

Risos.

Gente vivendo.

E ali dentro…

silêncio.

— A gente precisa chamar a Beck — Tina disse primeiro, a voz baixa, mas firme.

— E falar o quê? — Ruan respondeu. — “Oi, sua festa virou cena de crime”?

— Melhor do que fingir que nada aconteceu — ela rebateu.

— Ninguém tá fingindo nada.

— Você tá bem perto disso.

Letícia ainda estava parada, olhando pra Sara.

— Ela não morreu do nada.

— Não — Davy respondeu.

— Então alguém fez.

Silêncio curto.

Pesado.

Miguel passou a mão no rosto.

— Vey… isso não tá acontecendo.

— Tá — Eduardo disse. — E a gente precisa pensar direito agora.

— Pensar o quê? Eu quero ir embora.

— E você vai sair explicando isso como? — Eduardo olhou pra ele. — “Foi mal, tinha um corpo lá dentro mas eu só meti o pé”?

Miguel travou.

— Tá… justo.

Luani deu alguns passos pra trás, encostando na parede.

— Isso aqui tá errado… muito errado.

Fael ficou perto dela.

— Respira, respira.

— Eu tô tranquila.

— Não tá.

— Eu sei.

Enquanto isso, Davy ainda estava abaixado perto do corpo.

Observando.

Com mais calma agora.

— Não tem sangue — ele disse.

Todo mundo olhou.

— O quê? — Letícia perguntou.

— Não tem sinal de luta… nem nada quebrado aqui perto.

— Então como—? — Tina começou.

— Eu não sei ainda — Davy respondeu, sincero. — Mas não parece… impulsivo.

— Como assim? — Eduardo perguntou.

— Parece planejado.

Silêncio.

Ruan soltou um ar pelo nariz.

— Ótimo. Então a gente tá com um assassino organizado.

— Não ajuda — Andressa disse.

— Eu tô sendo realista.

— Você tá sendo irritante.

Vitus cruzou os braços.

— Tá, vamos por partes.

Ele olhou ao redor.

— Quem foi a última pessoa que viu ela?

Silêncio.

Um mais pesado dessa vez.

Miguel coçou a cabeça.

— Eu vi ela brigando com a Letícia.

Letícia virou na hora.

— E daí?

— Nada, só tô falando.

— Fala direito então.

— Você tava brigando com ela faz tipo… pouco tempo.

— E você tava lá também — Letícia rebateu.

— Mas eu não tava com cara de quem queria matar ela.

— E eu tava?

Tensão.

Tina entrou no meio.

— Gente, pelo amor de Deus, isso não vai virar briguinha agora.

— Não é briguinha — Letícia respondeu. — É fato.

Davy levantou.

— Foco.

Todo mundo ficou quieto.

— A gente precisa organizar isso.

Ele apontou pro corpo.

— Isso aqui aconteceu faz pouco tempo.

— Como você sabe? — Eduardo perguntou.

— O celular ainda tá gravando, a tela não apagou… e o corpo não tá frio ainda.

Miguel fez uma cara de desconforto.

— Vey…

— Então — Davy continuou — alguém aqui pode ter visto alguma coisa.

— Eu vi ela entrando no corredor — Emerson disse.

Todo mundo olhou pra ele.

— Sozinha.

— Você viu mais alguém? — Vitus perguntou.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ruan levantou a sobrancelha.

— Então ela entrou sozinha… e morreu aqui dentro?

— Não necessariamente — Davy respondeu. — Alguém pode ter entrado depois.

— Tipo quem? — Tina perguntou.

Silêncio.

Porque a resposta era óbvia.

Qualquer um ali.

Eduardo respirou fundo.

— Tá… vamos fazer simples. Quem entrou depois dela?

Um por um, eles começaram a se olhar.

Refazendo mentalmente.

— Eu fui com vocês — Miguel disse.

— Eu também — Fael completou.

— Eu tava com eles — Tina apontou.

— Eu também — Letícia falou.

— Eu cheguei com a Luani — Davy disse.

— Eu tava com ele — ela confirmou.

— Eu tava com a Andressa — Ruan falou.

— Tava — ela confirmou, seca.

— Eu fui atrás do Emerson — Vitus disse.

— Eu já tava aqui — Emerson respondeu.

Eduardo cruzou os braços.

— E eu vim depois.

Silêncio.

Davy pensou.

Rápido.

— Então ninguém aqui entrou sozinho.

— Isso não prova nada — Andressa disse.

— Não mesmo — Davy concordou. — Só diminui as possibilidades.

Letícia soltou uma risada curta, sem humor.

— Que possibilidades? Tá todo mundo aqui, Davy.

Ele olhou pra ela.

— Exato.

O silêncio voltou.

Mais pesado ainda.

— Não — Miguel disse, balançando a cabeça. — Não, não, não… não é ninguém daqui.

— Você tem certeza? — Ruan perguntou.

— Tenho.

— Por quê?

Miguel travou.

— Porque… porque não faz sentido.

Eduardo falou, mais baixo dessa vez:

— Faz.

Miguel olhou pra ele.

— Não faz.

— Faz sim.

E pela primeira vez…

ninguém discordou.

Luani fechou os olhos por um segundo.

Respirou fundo.

E disse:

— A gente não tá sozinho.

Todo mundo olhou pra ela.

— Tem mais gente nessa casa.

Ruan deu um meio sorriso.

— Claro que tem. A festa inteira.

— Não é disso que eu tô falando.

Silêncio.

Davy olhou pra ela.

— O que você quer dizer?

Ela demorou.

Mas respondeu:

— Eu senti antes… e sinto agora.

— Para — Miguel disse. — Não fala isso.

— Tem alguém aqui… que não devia estar.

O ar pareceu pesar.

E então—

um barulho.

Atrás deles.

A porta.

Lentamente…

se fechando.

Sozinha.

Ninguém encostou.

O som do “clique” ecoou pela sala.

E ninguém precisou dizer em voz alta.

Agora…

eles estavam presos ali dentro.

Com um corpo.

E talvez…

com o assassino.

CAPÍTULO 6 — PORTA FECHADA

O som da porta fechando ainda parecia ecoar na cabeça de todo mundo.

Ninguém falou por alguns segundos.

Como se qualquer palavra fosse… piorar.

— Isso foi alguém zoando — Miguel disse, rápido demais.

Ninguém respondeu.

— Foi alguém zoando, né? — ele insistiu, olhando de um pro outro.

— Vai lá e abre então — Ruan disse.

Miguel travou.

— Eu… não vou sozinho.

Letícia já estava andando.

— Sai da frente.

Ela puxou a maçaneta.

Nada.

— Tá trancada — ela disse.

— Deixa eu ver — Davy foi até a porta.

Tentou.

Forçou um pouco mais.

Nada.

— Não é só trancada — ele falou. — Tá travada.

— Como assim travada? — Tina perguntou.

— Tipo… não abre por dentro.

— Ah não, vey — Miguel começou a andar de um lado pro outro. — Não, não, não… isso já virou coisa de filme ruim.

— Para de andar — Andressa disse. — Tá me irritando.

— Eu tô nervoso!

— Eu também tô.

— Então por que você tá calma?

— Eu não tô calma.

Silêncio.

Eduardo passou a mão no rosto.

— Tá, alguém aqui precisa pensar direito.

— Você pensa então — Letícia disse.

— Eu tô pensando.

— Então fala.

Ele olhou pra porta.

Depois pro corpo.

Depois pras pessoas.

— Isso aqui não foi aleatório.

— A gente já entendeu essa parte — Ruan respondeu.

— Não, tipo… tudo isso.

Ele apontou ao redor.

— A festa, o jogo, a porta…

— Você acha que tá conectado? — Davy perguntou.

— Eu acho que pode estar.

Emerson, até então quieto, falou:

— Está.

Todo mundo olhou.

Vitus franziu o cenho.

— Você tá com muita certeza pra quem “não sabia de nada”.

Emerson ignorou.

O olhar dele estava no chão.

Mais especificamente…

no celular da Sara.

— O jogo não começou agora — ele disse.

Um silêncio pesado caiu.

— Como assim? — Tina perguntou.

Emerson apontou pro celular.

— Isso tá gravando desde antes dela entrar aqui.

Davy se aproximou.

Pegou o celular com cuidado.

Olhou a tela.

— Ele tá certo.

— E daí? — Letícia perguntou.

— Daí que… — Davy deslizou o dedo na tela — a gente pode ver o que aconteceu.

O clima mudou.

Na hora.

— Então vê — Ruan disse.

Davy hesitou.

— Vocês têm certeza?

— Eu não quero ver isso — Luani disse, mais baixa.

— Mas a gente precisa — Eduardo respondeu.

Silêncio.

Davy deu play.

O vídeo começou.

Imagem tremida.

Sara andando pelo corredor.

Falando com o celular.

— Gente, eu juro, essa casa tem uns lugares muito estranhos—

A voz dela ecoava na sala.

Agora… morta.

— Se eu sumir, já sabem quem foi — ela riu.

Miguel desviou o olhar.

No vídeo, ela entrou na sala.

Exatamente onde eles estavam agora.

— Tá vazio… — a voz dela continuava.

Ela girou a câmera.

Mostrando os móveis.

As paredes.

O chão.

Nada.

— Eu vou explorar mais—

O vídeo cortou um pouco.

Como se tivesse travado.

— Que isso? — Eduardo falou.

Davy voltou alguns segundos.

Deu play de novo.

A imagem tremia.

Chiava.

E então…

por um frame.

Muito rápido.

Uma sombra.

Atrás dela.

— Vocês viram isso? — Tina disse.

— Volta — Letícia falou na hora.

Davy voltou.

Frame por frame.

E lá estava.

Uma silhueta.

Parada.

Atrás da Sara.

Mas…

não dava pra ver o rosto.

— Isso não prova nada — Andressa disse, mas a voz não tava firme.

— Continua — Vitus falou.

Davy deu play.

No vídeo, Sara não percebe.

Continua falando.

— Ai, gente, eu juro, eu sou muito corajosa—

A sombra se move.

Mais perto.

Miguel deu um passo pra trás.

— Vey…

O vídeo treme.

E então—

A tela fica preta.

Mas o áudio continua.

Um barulho.

Como algo sendo puxado.

Um som abafado.

E depois…

silêncio.

O vídeo termina.

Ninguém falou.

Ninguém se mexeu.

— Tinha alguém aqui — Fael disse, baixo.

— Tinha — Davy confirmou.

— E não era a gente — Miguel completou.

Silêncio.

Ruan passou a mão no cabelo.

— Então tem mais alguém nessa casa.

— Ou tinha — Tina disse.

Letícia olhou ao redor.

Mais atenta agora.

— Não… ainda tem.

O ar parecia mais pesado.

Mais apertado.

Eduardo falou, mais sério do que antes:

— A gente precisa sair daqui.

— Óbvio — Andressa respondeu.

— Não, tipo… agora.

— Então abre a porta — Ruan disse.

— Eu não consigo.

— Então quebra.

— Com o quê?

Silêncio.

Miguel olhou ao redor.

— Tem alguma coisa aqui…

E então—

Emerson falou.

Baixo.

Quase como se estivesse pensando em voz alta.

— A gente não devia ter vindo junto.

— O quê? — Vitus perguntou.

Ele levantou o olhar.

E dessa vez…

tinha medo.

De verdade.

— Era pra gente se separar.

Um silêncio gelado caiu.

— Por quê? — Tina perguntou.

Ele demorou.

Mas respondeu:

— Porque agora…

Ele olhou ao redor.

Um por um.

— Se alguém daqui for o assassino…

Ninguém respirava.

— …ninguém tem como provar nada.

O impacto veio devagar.

Mas veio forte.

Letícia foi a primeira a reagir.

— Então fala logo.

Silêncio.

— Quem você acha que foi?

Todos olharam pra Emerson.

Esperando.

E pela primeira vez…

ele hesitou.

— Eu não sei.

Mas alguém ali…

sabia.

E estava ouvindo tudo.

Em silêncio.

CAPÍTULO 7 — PRIMEIRA RACHADURA

O silêncio depois do vídeo não foi só pesado.

Foi desconfiado.

Cada um ali começou, mesmo sem querer, a olhar diferente pro outro.

Como se estivesse tentando enxergar além da fantasia.

Além da amizade.

Letícia foi a primeira a quebrar isso.

— Tá bom. Chega.

Todo mundo olhou.

— A gente não vai ficar rodando em círculo fingindo que tá tudo bem.

— Ninguém tá fingindo — Tina respondeu.

— Então vamos falar direito.

Ela cruzou os braços.

— Alguém aqui matou ela.

Direto.

Sem suavizar.

Miguel soltou uma risada nervosa.

— Vey… você fala isso assim, na cara?

— Eu falo.

— A gente se conhece.

— Justamente.

Silêncio.

Ruan inclinou a cabeça.

— Você tá olhando pra alguém específico ou só jogando isso no ar?

— Se eu tivesse certeza, já tinha falado.

— Mas você suspeita.

— Todo mundo aqui suspeita.

Ninguém negou.

Davy respirou fundo.

— Vamos organizar isso.

— De novo isso — Andressa murmurou.

— É o único jeito de não virar caos — ele respondeu.

Ela não rebateu.

— A gente sabe algumas coisas — Davy continuou. — Ela entrou sozinha. Tinha alguém aqui dentro antes da gente chegar.

— Ou entrou depois — Eduardo disse.

— Sim.

— E esse alguém… não apareceu ainda.

— Ou apareceu — Tina falou.

O grupo ficou em silêncio.

— Como assim? — Fael perguntou.

Tina deu de ombros.

— A gente não viu o rosto da sombra.

— Tá querendo dizer o quê? — Letícia perguntou.

— Nada. Só que… a gente não sabe de nada.

Eduardo assentiu devagar.

— Ela tem um ponto.

Miguel olhou de um pro outro.

— Eu não gosto desse rumo.

— Ninguém gosta — Vitus respondeu.

Um silêncio curto.

E então—

— Eu vi alguém.

A voz veio baixa.

Mas suficiente pra cortar tudo.

Todos olharam.

Luani.

Davy virou pra ela.

— O quê?

Ela parecia hesitar.

Mas continuou.

— Antes da gente vir pra cá.

— Onde? — Letícia perguntou.

— Perto do corredor.

— Quem? — Ruan perguntou.

Luani respirou fundo.

— Eu não vi direito.

— Mas?

Silêncio.

— Parecia… alguém de preto.

Todo mundo ali estava de preto.

Ou quase.

Miguel soltou um “ah não” baixo.

— Isso não ajuda em nada — Andressa disse.

— Eu sei — Luani respondeu. — Eu só… lembrei agora.

Davy passou a mão no rosto.

Pensando.

— Tinha alguma coisa diferente?

Ela demorou.

— A forma de andar.

— Como assim? — Eduardo perguntou.

— Meio… calma demais.

Silêncio.

— Todo mundo aqui tava meio normal antes — Tina disse.

— Não todo mundo — Vitus falou.

Os olhares começaram a se cruzar.

Mais atentos.

Mais perigosos.

— Tá — Ruan disse. — Isso já tá indo pra um lugar chato.

— Sempre foi — Letícia respondeu.

— Não, tipo… agora a gente vai começar a apontar dedo.

— E você tá com medo disso? — Andressa perguntou.

— Não. Só acho que vai ficar feio.

— Já ficou.

Silêncio.

E então—

— Espera.

Eduardo falou.

Ele tava olhando pro celular ainda na mão do Davy.

— Volta um pouco o vídeo.

— Pra quê? — Davy perguntou.

— Só volta.

Davy obedeceu.

Voltou alguns segundos antes da sombra aparecer.

— Para aí.

Ele parou.

Eduardo se aproximou.

— Dá zoom.

— Tá ruim a qualidade — Davy avisou.

— Eu sei, só tenta.

Davy aproximou.

A imagem ficou granulada.

Mas ainda dava pra ver.

A sombra.

De novo.

— Olha isso — Eduardo disse.

— O quê? — Tina perguntou.

— A altura.

Silêncio.

Todos olharam melhor.

— Não é tão alto — ele continuou.

Miguel arregalou os olhos.

— Vey…

— E não é baixo também — Letícia disse.

— Tá no meio — Vitus completou.

— Ou seja… — Ruan começou.

— Pode ser qualquer um daqui — Andressa finalizou.

O clima piorou.

Muito.

Miguel deu um passo pra trás.

— Isso não tá certo.

— Claro que não tá — Letícia respondeu.

— Não, tipo… isso aqui tá muito… perfeito.

Silêncio.

— Perfeito? — Davy perguntou.

— É — Miguel disse. — Tipo… parece que alguém queria isso.

Ninguém riu.

Porque ninguém conseguiu.

Eduardo falou baixo:

— O jogo.

— O quê? — Fael perguntou.

— O jogo começou antes.

Silêncio.

— A Beck… — Tina começou.

— Não — Letícia cortou. — Não viaja.

— Eu não tô viajando — Eduardo respondeu. — Ela que organizou tudo.

— Isso não significa nada.

— Significa que ela controla o ambiente.

Davy olhou pra ele.

Pensando.

Mas antes que pudesse falar—

Um barulho.

Do lado de fora da sala.

Passos.

Lentos.

Parando na porta.

Ninguém respirou.

A maçaneta mexeu.

Uma vez.

Duas.

Mas não abriu.

E então…

silêncio.

Miguel sussurrou:

— Vey…

Ninguém respondeu.

Porque todos estavam pensando a mesma coisa.

Alguém estava do outro lado.

E sabia exatamente onde eles estavam.

CAPÍTULO 8 — ACUSAÇÕES

Ninguém se mexeu.

A maçaneta tinha parado.

Mas a sensação de presença… não.

Ela ficou ali.

Pesada.

Respirando junto com eles.

Miguel foi o primeiro a ceder.

— Vey… alguém abre essa porta logo.

— Vai você — Ruan respondeu, cruzando os braços.

— Ah, claro, eu vou lá morrer rapidinho e já volto.

— Drama.

— Drama é você estar vivo ainda, inclusive.

— Chega — Letícia cortou, já irritada. — Isso não é hora.

Ela foi até a porta.

Sem pedir opinião.

Sem hesitar.

Girou a maçaneta de uma vez.

Abriu.

O corredor.

Vazio.

Nenhum som.

Nenhuma sombra.

Nada.

— Ótimo — ela murmurou. — Agora a gente também tem um fantasma andando por aí.

— Ou alguém muito esperto — Davy disse.

Letícia fechou a porta devagar.

Mas dessa vez, trancou.

— Ninguém entra. Ninguém sai.

— A gente tá preso então? — Fael perguntou.

— A gente já tava.

Silêncio.

E então…

a tensão explodiu.

— Eu não confio nisso — Andressa disse, seca.

— Disso o quê? — Tina perguntou.

— Disso tudo.

Ela olhou ao redor.

— Essa sala, esse vídeo, esse “jogo”…

— Ninguém aqui confia — Vitus respondeu.

— Eu confio em alguns.

Silêncio.

— Fala — Ruan disse. — Quero ver.

Andressa cruzou os braços.

— Eu confio no Ruan.

Ruan levantou uma sobrancelha.

— Justo.

— E no Davy.

Davy assentiu, meio surpreso.

— O resto…

Ela deu de ombros.

— Eu penso.

— Ah, que lindo — Eduardo comentou. — Ranking de confiança agora.

— Quer subir na lista? — ela respondeu.

— Depende, tem prêmio?

— Eduardo — Letícia falou, já sem paciência.

Ele levantou as mãos.

— Tá, parei.

Mas o clima já tinha mudado.

Agora era pessoal.

— Então vamos fazer isso direito — Letícia disse. — Já que ninguém confia em ninguém.

— Lá vem — Miguel murmurou.

— Cada um fala onde tava.

— Ah não — Tina soltou.

— Sim.

— Isso é interrogatório agora?

— É sobrevivência.

Silêncio.

— Eu começo — Letícia disse. — Eu tava com a Tina e o Eduardo na área externa.

— Verdade — Eduardo confirmou.

— A gente tava falando de fantasia ruim e julgando os outros.

— Normal — Tina completou.

— Depois a gente se separou — Letícia continuou. — Eu fui pegar bebida.

— Eu fui atrás de você depois — Eduardo disse.

— Não achei — Letícia respondeu.

Silêncio curto.

— Próximo — ela disse.

Ruan deu um passo à frente.

— Eu tava fumando lá fora.

— Sozinho? — Davy perguntou.

— Sim.

— Ninguém viu?

— Não.

— Conveniente — Andressa comentou.

Ruan olhou pra ela.

— Você acredita em mim.

Ela sustentou o olhar.

— Eu acredito.

Silêncio estranho.

— Tá — Letícia disse. — Próximo.

— Eu e o Fael — Miguel levantou a mão. — A gente tava dançando.

— Muito mal, inclusive — Fael disse.

— Mentira, eu tava entregando tudo.

— Você tava entregando vergonha.

Mesmo com tudo… alguém soltou uma risada fraca.

Mas passou rápido.

— A gente não saiu de lá — Fael completou.

— Ok — Letícia disse.

— Eu tava com a Luani — Davy falou.

— Sim — ela confirmou. — A gente ficou perto da escada.

— E você viu a pessoa de preto — Letícia lembrou.

— Vi.

— Mas não falou na hora.

Silêncio.

Luani hesitou.

— Eu… não achei que fosse importante.

— Agora é — Andressa disse.

— Eu sei.

— Próximo.

— Eu tava com o Emerson — Vitus disse.

Todos olharam.

Mas Emerson não respondeu.

Ele estava no canto da sala.

Encostado na parede.

Quieto.

Observando.

— Emerson? — Letícia chamou.

Ele demorou.

Mas respondeu.

— Tava.

— Só isso? — Eduardo perguntou.

— Só isso.

Silêncio.

— Você viu alguma coisa? — Davy perguntou.

Emerson olhou pra ele.

E por um segundo…

pareceu que ia falar.

Mas não falou.

— Não.

Mentira.

E todo mundo sentiu.

— Falta você — Letícia disse, olhando pra Andressa.

— Eu tava sozinha.

— Claro — Tina murmurou.

Andressa virou na hora.

— Quer repetir?

— Não, obrigada.

— Então cala a boca.

— Gente — Davy tentou intervir.

— Não — Andressa cortou. — Já que é pra jogar limpo.

Ela deu um passo à frente.

— Eu tava sozinha, sim.

Silêncio.

— E você tava onde, Tina?

O clima virou.

— Com o Eduardo — ela respondeu.

— Depois não.

Silêncio.

— Você sumiu.

Tina travou por um segundo.

Letícia percebeu.

— Tina?

— Eu fui no banheiro.

— Sozinha?

— Sim.

— Demorou quanto tempo? — Davy perguntou.

— Eu não cronometrei, Davy.

— Mas demorou.

Silêncio.

— Vocês tão insinuando o quê? — Tina perguntou.

— Nada — Andressa respondeu. — Só perguntando.

— Perguntando muito.

— Porque você tá nervosa?

— Eu não tô nervosa!

— Tá sim.

— ANDRESSA.

Letícia levantou a voz.

Silêncio.

Pesado.

— Chega.

Mas já era tarde.

A dúvida já tinha sido plantada.

Miguel olhou pra Tina.

Confuso.

— Tina…?

Ela desviou o olhar.

— Eu não fiz nada.

Ninguém respondeu.

Porque o problema…

não era mais o que foi dito.

Era o que ficou no ar.

E então…

Um som.

Dentro da sala.

Não da porta.

Não do corredor.

De dentro.

Um leve…

clique.

Todos congelaram.

Davy olhou devagar.

Para o projetor.

Que estava desligado.

Ou deveria estar.

A luz vermelha piscava.

E então…

ligou.

Sozinho.

A parede iluminou.

Novo vídeo.

Mas dessa vez…

não era Sara.

Era…

alguém da sala.

A gravação tremida mostrava um corredor.

Escuro.

E uma pessoa.

Parada.

O rosto…

coberto.

Mas a fantasia…

inconfundível.

Todo mundo virou ao mesmo tempo.

Para a pessoa real.

Na sala.

Que usava exatamente a mesma fantasia.

Silêncio absoluto.

Agora…

não era mais teoria.

Era alguém dali.

CAPÍTULO 9 — O PRIMEIRO SUSPEITO

O vídeo travou por alguns segundos.

Tempo suficiente.

Pra todo mundo reconhecer.

A fantasia.

Um casaco escuro, longo… com detalhes vermelhos sutis.

Máscara parcial.

Elegante.

Fria.

Todos olharam.

Devagar.

Para a mesma pessoa.

Vitus.

O silêncio foi tão pesado que parecia empurrar o ar pra fora da sala.

Vitus não se mexeu.

Mas também não tentou disfarçar.

— Ah… — Miguel soltou, quase rindo de nervoso. — Tá de sacanagem.

— Isso não prova nada — Vitus disse, calmo.

— Não? — Tina respondeu. — Porque parece provar bastante coisa.

— Parece.

— É literalmente você — Fael disse.

— É alguém com a mesma fantasia.

— Que é você.

— Ou alguém que quis parecer comigo.

Silêncio.

Ele não elevou a voz.

Não tentou fugir.

Isso, por si só, já incomodava.

Letícia deu um passo à frente.

— Onde você tava exatamente?

— Eu já falei.

— Fala de novo.

Vitus suspirou.

— Com o Emerson.

Todos olharam.

Emerson continuava no canto.

Quieto.

— Confirma? — Letícia perguntou.

Silêncio.

— Emerson?

Ele demorou.

De novo.

— Confirmo.

Mas dessa vez…

ninguém acreditou.

— Vey… — Eduardo passou a mão no cabelo. — Isso tá muito estranho.

— Tá mesmo — Davy disse. — Porque o vídeo não mente.

— Vídeo pode mentir — Vitus respondeu.

— Como?

— Corte. Ângulo. Tempo.

Davy ficou em silêncio.

Analisando.

— Você é inteligente demais pra alguém que “não sabe de nada” — Andressa disse.

— Eu nunca disse que não sabia.

Silêncio.

— Então sabe o quê? — Ruan perguntou.

Vitus olhou pra ele.

— Que alguém quer que a gente se vire um contra o outro.

— Parabéns, Sherlock — Miguel murmurou.

— Eu tô falando sério.

— E a gente também — Letícia respondeu. — Você aparece num vídeo no corredor onde a Sara morreu.

— Não mostra ela.

— Mostra o lugar.

— Não mostra o momento.

— Para de se defender tecnicamente! — Tina explodiu. — Você tava lá!

Silêncio.

Pela primeira vez…

Vitus hesitou.

Um segundo só.

Mas suficiente.

— Eu tava no corredor, sim.

O ar ficou pesado.

— Quando? — Davy perguntou.

— Antes.

— Antes de quê?

— Antes de vocês chegarem lá.

— E por que você não falou isso antes? — Letícia perguntou.

Silêncio.

— Porque eu sabia que isso ia acontecer.

— Isso o quê? — Fael perguntou.

— Isso aqui.

Ele abriu os braços.

— Vocês apontando pra mim.

— E você preferiu mentir? — Davy perguntou.

— Preferi evitar.

— Evitar o quê? — Andressa disse. — Ser suspeito ou ser culpado?

Silêncio.

Vitus não respondeu.

E isso…

falou muito mais do que qualquer coisa.

Miguel começou a andar de um lado pro outro.

— Não, não, não… isso não tá certo.

— O quê? — Eduardo perguntou.

— O Vitus matar alguém? Vey, ele nem levanta a voz direito.

— Isso não significa nada — Letícia disse.

— Significa um pouco.

— Assassino não tem cara — Davy respondeu.

Silêncio.

— E outra — Davy continuou. — Ele admitiu que tava no corredor.

— Antes — Vitus reforçou.

— Sozinho.

— Sim.

— Conveniente de novo — Andressa disse.

— Eu tenho uma pergunta — Ruan falou.

Todos olharam.

— Se você tava lá… você viu a Sara?

Silêncio.

Vitus travou.

E dessa vez…

não conseguiu esconder.

— Vi.

O clima mudou na hora.

— Viu? — Tina repetiu. — E não falou?

— Ela tava viva.

— E você saiu? — Letícia perguntou.

— Saí.

— Deixou ela sozinha?

— Sim.

— Por quê?

Silêncio.

— Porque ela não tava sozinha.

O coração de todo mundo pareceu parar por um segundo.

— O quê? — Davy perguntou.

— Tinha alguém com ela.

— Quem?

Silêncio.

— Eu não vi o rosto.

— Mentira — Andressa disse na hora.

— Eu não vi.

— Ou não quer falar.

— Eu não vi.

Silêncio.

— Mas você viu alguma coisa — Davy insistiu.

Vitus respirou fundo.

— A fantasia.

— Qual? — Letícia perguntou.

Silêncio.

Vitus olhou lentamente…

…para alguém do grupo.

E nesse exato momento—

A porta.

BATEU.

Com força.

Todo mundo se assustou.

— CARALHO — Miguel gritou.

A maçaneta começou a girar desesperadamente.

Alguém tentando entrar.

Com força.

— Segura! — Letícia gritou.

Ruan e Davy correram pra porta.

Seguraram.

A maçaneta girando.

Mais forte.

— Tem alguém aí! — Fael gritou.

— ÓBVIO QUE TEM — Eduardo respondeu.

O barulho parou.

Do nada.

Silêncio.

Pesado.

E então…

Uma voz.

Do outro lado.

Baixa.

Distorcida.

— Vocês estão jogando errado.

Ninguém respirou.

— Não é sobre quem estava lá.

Silêncio.

— É sobre…

Uma pausa.

— Quem queria que ela morresse.

E passos.

Se afastando.

Lentos.

Sumindo.

Dentro da sala…

ninguém falou nada.

Porque agora…

a suspeita tinha mudado.

E piorado.

Muito.