CAPÍTULO 1 — A FESTA
A casa da Beck não era exatamente uma casa.
Era uma mansão.
Isolada o suficiente pra ninguém reclamar do som alto, mas perto o suficiente da cidade pra todo mundo querer estar ali. Luzes roxas e laranjas iluminavam o jardim, teias artificiais pendiam das árvores, e uma névoa baixa — provavelmente máquina de fumaça — cobria o chão como se o lugar inteiro estivesse respirando alguma coisa viva.
A música pulsava forte.
E Beck, claro, estava no centro de tudo.
Vestida como uma espécie de demônio futurista — chifres metálicos, maquiagem impecável em tons neon e um casaco preto com detalhes em LED — ela observava tudo com um meio sorriso, braços cruzados.
— Eu falei que ia ser a melhor festa do ano — disse ela, sem olhar pra ninguém específico.
Letícia, ao lado dela, revirou os olhos.
Fantasiada de caçadora pós-apocalíptica, com um taco de beisebol cheio de spikes falsos, respondeu:
— Se der problema, a culpa é tua. Eu só vim pela bebida.
— E pelo caos — Beck completou.
— Principalmente pelo caos.
As duas trocaram um olhar cúmplice.
E aí a porta abriu com força.
— CHEGAMOS!
Miguel entrou tropeçando no próprio pé, vestindo uma fantasia de fantasma glitchado — tipo um lençol tradicional, mas cheio de luzes piscando aleatoriamente e um óculos que dava efeito de distorção.
Atrás dele vinha Fael, vestido de anjo caótico — asas meio bagunçadas, auréola torta e glitter demais.
— Eu falei pra você não correr — Fael disse, segurando o riso.
— Eu não corri, eu deslizei emocionalmente.
— Isso nem faz sentido.
— Faz sim, você que não sente as coisas.
Tina entrou logo depois, impecável como sempre.
Fantasiada de socialite vampira, com um vestido vermelho absurdo de caro e um copo na mão que ela provavelmente pegou antes mesmo de entrar.
— Beck, amor — ela disse, beijando o ar perto do rosto dela — se essa festa for ruim eu vou falar mal de você por pelo menos três meses.
Beck sorriu.
— Então reza pra ser boa.
Eduardo surgiu atrás dela, vestido de cientista maluco digital — jaleco cheio de QR codes e óculos com tela.
— Eu trouxe um negócio.
— Não — Letícia respondeu automaticamente.
— Você nem sabe o que é.
— Se veio de você, já é um problema.
— É só uma experiência social.
— PIOROU.
Do outro lado da sala, Luani entrou de mãos dadas com Davy.
Ela estava vestida de fada etérea, com tons suaves e brilhantes, enquanto Davy parecia um detetive noir moderno, com sobretudo e tudo.
— Tá sentindo isso? — Luani disse, olhando ao redor.
Davy arqueou a sobrancelha.
— Música alta?
— Não… tipo… uma energia estranha.
— Amor, é uma festa de Halloween.
— Mesmo assim…
Ele apertou a mão dela.
— Se alguma coisa estranha acontecer, eu descubro. Relaxa.
— Eu sei que descobre — ela sorriu — é por isso que eu tô calma.
Perto da escada, Andressa encostava na parede.
Fantasiada de bruxa contemporânea, toda de preto, maquiagem pesada e olhar afiado.
Ruan apareceu ao lado dela, vestido de palhaço glitch, com maquiagem distorcida e roupas assimétricas.
— Você tá bonita — ele disse, casual.
— Eu sei.
— Convencida.
— Realista.
Ele riu.
— Vai ficar aí julgando todo mundo ou vai curtir?
— Tô curtindo.
— Você parada?
— Tô analisando.
— Perigoso isso.
Ela finalmente olhou pra ele.
— Mais perigoso é você.
Silêncio curto.
Um sorriso leve dele.
E então—
Mais ao fundo, longe da música mais alta, Emerson estava sentado.
Fantasiado de observador mascarado — uma roupa simples, escura, com uma máscara branca lisa.
Vitus encostava na parede ao lado.
— Você sempre faz isso — Vitus disse.
— O quê?
— Fica quieto… olhando.
— Alguém precisa olhar.
— E o que você tá vendo?
Emerson demorou alguns segundos pra responder.
— Gente demais… fingindo ser outra coisa.
Vitus riu baixo.
— É Halloween, gênio.
— Não é disso que eu tô falando.
Eduardo apareceu do nada, se jogando entre eles.
— EU TENHO UMA IDEIA.
— Isso nunca é bom — Vitus disse.
— A gente devia fazer um jogo.
— Não — Emerson respondeu, direto.
— Sim — Eduardo ignorou — tipo… um jogo de verdade. Mistério. Assassinato. Personagem secreto.
Vitus cruzou os braços.
— Tem gente suficiente pra dar merda.
Eduardo sorriu.
— EXATAMENTE.
Do outro lado da sala, Beck levantou o copo.
— ATENÇÃO!
A música abaixou um pouco.
Todos olharam.
— Já que vocês vieram até aqui… vamos fazer isso direito.
Letícia já começou a rir.
— Lá vem.
Beck continuou:
— Tem um jogo rolando hoje.
Um silêncio curioso se espalhou.
— Um de vocês… — ela disse, olhando lentamente ao redor — vai ser o assassino.
Miguel arregalou os olhos.
— EU SABIA QUE IA TER MORTE.
Fael puxou ele.
— É um jogo, calma.
Beck sorriu… mas dessa vez, havia algo diferente.
— Talvez.
Um silêncio estranho caiu por um segundo.
Quase ninguém percebeu.
Mas Luani sentiu.
E Emerson…
…também.
Ele olhou direto pra Beck.
Como se estivesse tentando entender algo que ainda não fazia sentido.
E pela primeira vez desde que chegou…
ele pareceu desconfortável.
CAPÍTULO 2 — O JOGO COMEÇA
O burburinho cresceu imediatamente depois do anúncio.
Não era só animação — era curiosidade, desconfiança, excitação. Algumas pessoas riram, outras começaram a se juntar em grupos menores, já criando teorias como se aquilo fosse mais sério do que deveria ser.
E talvez fosse.
Beck desceu lentamente do pequeno degrau onde estava, ainda segurando o copo, enquanto Letícia permanecia ao lado, observando tudo com aquele olhar de quem já esperava confusão.
— Explica direito isso aí — Letícia disse, cruzando os braços. — Porque dependendo do que você inventou, eu vou embora antes de começar.
— Relaxa — Beck respondeu, calma demais. — É simples.
Eduardo já estava praticamente vibrando.
— Eu posso explicar — ele disse, levantando a mão como se estivesse numa sala de aula.
— Não — três pessoas responderam ao mesmo tempo.
Ele ignorou.
— Cada um recebe um papel. Nesse papel tem uma função. Pode ser inocente… ou pode ser o assassino.
Miguel abriu a boca, lentamente.
— Tipo… Among Us?
Eduardo apontou pra ele.
— EXATAMENTE, só que sem nave espacial e com mais drama.
— E sem botão de emergência — Letícia completou.
— Ainda.
Fael olhou ao redor, animado.
— Eu gostei. Eu vou ser inocente, com certeza. Eu tenho cara de inocente.
— Você tem cara de quem morreria primeiro — Tina disse, tomando um gole da bebida.
— Isso foi específico demais.
— Eu observo padrões.
Ruan se aproximou, apoiando o braço no ombro de Eduardo.
— E como que mata alguém? — ele perguntou, com um sorriso enviesado.
— O assassino vai ter uma forma de eliminar alguém sem ser visto — Eduardo respondeu, agora mais sério. — E a cada rodada, a gente para e tenta descobrir quem é.
— Rodada? — Davy franziu o cenho. — Então é tipo… contínuo?
— Isso.
— E quem morre sai do jogo?
Beck respondeu dessa vez:
— Sai… mas continua na festa.
— Ah, então ninguém realmente morre — Miguel disse, aliviado.
Um silêncio pequeno, quase imperceptível, caiu.
Beck deu um meio sorriso.
— É.
Luani desviou o olhar.
Não foi a resposta.
Foi o jeito.
— Tem alguma coisa errada — ela murmurou.
Davy olhou pra ela.
— O quê?
— Não sei explicar… só—
— Você sempre sente essas coisas — ele disse, tentando tranquilizar. — Mas é só um jogo.
— Eu sei.
Mas ela não parecia convencida.
Do outro lado da sala, Andressa observava tudo em silêncio.
Ruan olhou pra ela de canto.
— Você tá pensando demais.
— Eu sempre penso demais.
— E qual é a teoria?
Ela demorou um pouco.
— Isso não foi ideia do Eduardo.
— Claro que foi.
— Não completamente.
Ruan ergueu uma sobrancelha.
— Você acha que a Beck tá escondendo alguma coisa?
— Eu acho que ela quer alguma coisa.
— E o que ela quer?
Andressa olhou direto pra Beck, que naquele momento distribuía envelopes pretos para alguns convidados mais próximos.
— Controle.
Enquanto isso, Emerson continuava sentado, segurando o envelope que tinha acabado de receber.
Ele ainda não tinha aberto.
Vitus percebeu.
— Você não vai ver?
— Já sei o suficiente.
— Não sabe.
— Sei que isso não é só um jogo.
Vitus soltou um suspiro leve.
— Você sempre vai pro pior cenário.
— E normalmente eu tô certo.
— Normalmente você é paranoico.
Emerson virou o envelope nas mãos.
— Olha em volta.
Vitus olhou.
Gente rindo.
Gente bebendo.
Gente flertando.
Nada fora do normal.
— Eu só vejo uma festa — ele disse.
— Exatamente — Emerson respondeu. — Boa demais.
Vitus franziu o cenho.
Mas antes que pudesse responder, Eduardo apareceu de novo.
— ABRAM OS ENVELOPES!
A energia mudou.
Todo mundo começou a rasgar os papéis ao mesmo tempo, alguns rindo, outros tentando esconder o que tinham recebido.
Miguel abriu o dele e arregalou os olhos.
— Eu… não entendi.
Fael se aproximou.
— O que tá escrito?
— Nada.
— Como assim nada?
— Tipo… nada mesmo.
Fael pegou o papel.
— Isso aqui é um… círculo?
— É.
— O que isso significa?
— Eu não sei.
— Talvez você seja inútil — Tina disse, passando por eles.
— Isso foi gratuito.
— Eu tô jogando psicologicamente.
— Você nem sabe jogar.
— Eu invento regras.
Perto deles, Letícia olhava o papel dela com uma expressão de puro tédio.
— Eu sou inocente. Que merda.
Eduardo apareceu atrás dela.
— Isso é exatamente o que um assassino diria.
Ela virou pra ele.
— Se eu fosse o assassino, você já tava no chão.
— Eu acredito.
Davy analisava o papel com atenção.
— Interessante.
Luani encostou nele.
— O que foi?
— Só… instruções.
— Tipo o quê?
— Observar. Esperar. Não agir impulsivamente.
Ela sorriu.
— Combina com você.
— Eu espero que sim.
Mas havia algo no olhar dele.
Algo calculando.
Enquanto isso, Andressa abriu o papel e não demonstrou reação.
Ruan tentou espiar.
— E aí?
— Nada demais.
— Mostra.
— Não.
— Suspeito.
Ela guardou o papel no bolso.
— Você já é suspeito só por existir.
— Isso é preconceito.
— Isso é estatística.
Os dois trocaram um olhar mais longo dessa vez.
E pela primeira vez, nenhum dos dois sorriu.
No canto da sala, Emerson finalmente abriu o envelope.
Ele leu.
E ficou completamente imóvel.
Vitus percebeu na hora.
— O que foi?
Emerson não respondeu.
Seus olhos estavam presos no papel.
— Emerson.
Ainda silêncio.
Vitus puxou o papel da mão dele.
Leu.
E franziu o cenho.
— Isso… não faz sentido.
— Eu falei — Emerson disse, finalmente.
— Isso aqui não é uma função.
— Eu sei.
Vitus olhou de novo.
— “Observe o fim antes que ele comece.”
Ele levantou os olhos.
— Que tipo de instrução é essa?
Emerson respirou fundo.
— Um aviso.
— De quem?
Emerson olhou ao redor.
A música voltou a subir.
A festa retomava o ritmo.
Mas agora…
Parecia diferente.
— Eu acho que… — ele começou, baixo — alguém aqui não tá jogando.
Vitus ficou em silêncio.
E pela primeira vez…
ele não teve resposta.
Do outro lado da sala, Beck observava tudo.
Imóvel.
Atenta.
Como se estivesse esperando alguma coisa acontecer.
E talvez estivesse.
Porque, sem que ninguém percebesse naquele momento…
uma das portas do corredor lateral…
se abriu sozinha.
Devagar.
Sem barulho.
Como um convite.
Ou uma armadilha.
CAPÍTULO 3 — A CASA RESPIRA
A música já tinha voltado com tudo.
Grave batendo no peito, luz piscando, gente dançando como se não existisse amanhã. O jogo… ainda estava lá, mas já começava a se misturar com a festa de um jeito meio perigoso.
Era difícil dizer onde terminava a brincadeira.
E onde começava outra coisa.
Miguel já tava no terceiro copo de alguma coisa que ele não fazia ideia do que era.
— Vey… isso aqui é bom, mas tá me deixando estranho — ele disse, apoiando o braço no ombro do Fael.
— Você sempre é estranho — Fael respondeu, rindo. — Isso aí só tá potencializando.
— Eu tô falando sério, bb… tipo… eu sinto que eu tô dentro de um filme.
— Você sempre acha isso também.
— Porque eu sou o protagonista.
Tina, que tava do lado, soltou uma risada curta.
— Se isso aqui fosse um filme, você já tinha morrido nos primeiros 15 minutos.
— Que isso, Tina, credo.
— É estatística — ela respondeu, dando de ombros. — Gente burra morre primeiro.
— Eu não sou burro.
— Você perguntou se gelo era sólido ontem.
— ERA UMA QUESTÃO FILOSÓFICA.
Eduardo apareceu do nada, já entrando no assunto:
— Na verdade, gelo é um estado físico da água—
— CALA A BOCA, EDUARDO — três pessoas falaram ao mesmo tempo.
Do outro lado da sala, Letícia tava encostada numa mesa, girando o copo entre os dedos enquanto observava o movimento.
Beck chegou perto.
— Tá analisando ou julgando?
— Os dois — Letícia respondeu. — Aquela ali já caiu três vezes e ninguém percebeu.
— Festa boa é assim.
— Festa boa não tem gente fingindo demais.
Beck deu um meio sorriso.
— Você tá incomodada?
Letícia deu uma risadinha pelo nariz.
— Eu? Nunca. Só acho que tem gente aqui que não devia ter vindo.
— Tipo quem?
Letícia nem precisou responder.
Porque, naquele exato momento—
— AI, GENTE, VOCÊS NÃO ACREDITAM—
A voz cortou o ambiente como uma faca.
Sara Franciele.
Ela entrou no meio da sala como se fosse dona do lugar.
Fantasiada de influencer zumbi, com maquiagem impecável (óbvio) e um celular na mão gravando tudo.
— Eu JURO, essa festa tá meio básica, mas dá pra salvar — ela dizia, olhando pra câmera. — A decoração é ok, a vibe é meio… experimental—
Letícia virou o rosto devagar.
— Ah não, vey.
Tina também já tinha visto.
— Não acredito que ela veio.
Miguel piscou, tentando focar.
— Quem?
— Sara Franciele — Tina respondeu, com um sorriso falso. — Aquela ali que ama aparecer.
— Ela não foi convidada — Letícia disse, já largando o copo.
Beck não respondeu de imediato.
Só observou.
Sara continuava andando, falando alto, rindo exagerado, cumprimentando gente como se fosse íntima.
— Amiga, essa festa tá babado, mas eu faria melhor — ela disse pra alguém aleatório.
— Ela tá se achando MUITO — Fael murmurou.
— Ela sempre se acha — Eduardo completou. — Isso é padrão comportamental dela.
— Eu vou lá — Letícia disse, já andando.
— Letícia— Beck chamou.
Mas ela já tinha ido.
Passos firmes.
Sem hesitar.
Ela parou bem na frente da Sara.
— Você tá perdida?
Sara virou devagar, analisando ela de cima a baixo.
— Letícia… né?
— Infelizmente você sabe meu nome.
— Relaxa, bb, eu sei o nome de todo mundo relevante.
Letícia deu um sorriso sem humor.
— Então você devia saber que você não foi convidada.
Um pequeno silêncio se formou ao redor.
Gente já começando a olhar.
Sara inclinou a cabeça, ainda sorrindo.
— Amor… festa grande assim não precisa de convite.
— Precisa sim.
— Ai, vey, não surta. Eu só vim dar uma movimentada.
— Ninguém pediu.
— Mas todo mundo gosta.
— Ninguém aqui gosta de você.
Direto.
Sem filtro.
Sara riu.
Mas foi uma risada diferente.
— Você fala isso porque?
— Porque é verdade.
— Ou porque você ainda tá presa naquela história ridícula?
O clima mudou.
Na hora.
Letícia deu um passo pra frente.
— Cuidado com o que você fala.
— Ou o quê?
— Ou você vai descobrir.
Sara aproximou também.
— Descobrir o quê, bb? Que você late mas não morde?
Tina apareceu do lado, já puxando Letícia levemente.
— Vey, deixa essa menina.
— Não, deixa — Letícia respondeu, sem tirar os olhos da Sara.
Davy, mais atrás, observava tudo em silêncio.
Luani segurou o braço dele.
— Isso não vai terminar bem.
— Eu sei.
— Faz alguma coisa.
— Ainda não.
Enquanto isso, Ruan assistia com um sorriso leve.
— Eu gosto dela — ele disse pra Andressa.
— Eu não — Andressa respondeu, seca.
— Ela movimenta.
— Ela provoca.
— Mesma coisa.
— Não.
Ruan olhou pra ela.
— Você quer ir lá também, né?
— Quero.
— Então vai.
Andressa não foi.
Mas ficou olhando.
Atenta.
Muito atenta.
No meio do confronto, Sara deu um passo pra trás, levantando as mãos.
— Ai, gente, relaxa… é Halloween, vamos viver, esquecer o passado—
— Eu não esqueço — Letícia disse.
— Problema seu.
Sara deu um sorriso provocador.
— Mas fica tranquila… eu não vim por você.
Silêncio.
Letícia estreitou os olhos.
— Então veio por quem?
Sara olhou ao redor.
Devagar.
Como se estivesse escolhendo.
E então disse:
— Pelo jogo.
Um arrepio leve passou por algumas pessoas.
Eduardo franziu o cenho.
— Como você sabe do jogo?
Sara deu de ombros.
— Todo mundo sabe, amor.
— Não — Emerson disse, baixo, mais ao fundo.
Ninguém ouviu.
Mas Vitus ouviu.
E isso bastou.
Sara já tava se afastando, voltando a andar pela festa como se nada tivesse acontecido.
Mas agora…
Todos estavam olhando.
E não era admiração.
Era outra coisa.
Algo entre irritação…
e incômodo.
Letícia voltou, ainda tensa.
Tina entregou outro copo pra ela.
— Bebe isso antes que você mate alguém de verdade.
— Eu não duvido — Eduardo disse.
— Cala a boca, Eduardo.
Ela bebeu.
Respirou fundo.
— Eu odeio ela.
— A gente sabe — Miguel disse.
— Não, tipo… de verdade.
Silêncio curto.
Fael olhou pra ele.
— Vey… você também odeia ela, né?
Miguel hesitou.
— Eu…
— Fala.
— Tá… odeio.
— Todo mundo odeia — Tina disse, simples.
Luani apertou mais a mão de Davy.
— Isso não é bom.
— Eu sei.
— Tá todo mundo com motivo.
Davy não respondeu.
Porque ele também sabia.
E não era só impressão.
Era fato.
Do outro lado da casa, no corredor lateral…
a porta que tinha se aberto antes…
continuava aberta.
Escura.
Silenciosa.
E agora—
Sara estava andando na direção dela.
Sozinha.
Ainda mexendo no celular.
Ainda falando com a câmera.
— Gente, eu vou explorar aqui porque aparentemente tem umas salas meio estranhas nessa casa—
Ela entrou no corredor.
A música ficou mais distante.
A luz… mais fraca.
— Se eu morrer, já sabem quem foi — ela riu sozinha.
E desapareceu na escuridão.
Na sala principal…
ninguém percebeu na hora.
Mas Emerson levantou a cabeça.
Como se tivesse sentido alguma coisa.
— Vitus…
— Hm?
— Você viu?
— O quê?
Emerson ficou em silêncio por alguns segundos.
Olhando fixo pro corredor.
— Nada.
Mas não era nada.
E, pela primeira vez desde o começo da festa…
ele parecia assustado de verdade.
CAPÍTULO 4 — QUANDO A BRINCADEIRA PARA (VERSÃO FINAL)
No começo… ninguém percebeu.
A música continuava alta, as luzes cortando o escuro em tons roxos e vermelhos, gente rindo alto demais, como se aquilo fosse só mais uma noite qualquer.
E era exatamente isso que tornava tudo estranho.
Porque nada parecia fora do lugar.
Ainda.
—
— Vey, cadê aquela garota mesmo? — Miguel perguntou, olhando por cima da multidão.
— Quem? — Fael respondeu, distraído.
— A Sara.
Tina deu um gole no copo, tranquila.
— Deve estar em algum canto gravando vídeo.
— Ou falando mal da festa — Letícia completou, meio rindo.
— Provável — Eduardo disse, encostando na mesa. — Mas ela não iria sumir sem aparecer depois. Não é o estilo dela.
Ruan olhou ao redor.
— Sumiu mesmo?
— Faz um tempinho já — Miguel respondeu.
— Estranho.
—
Luani, que estava mais quieta até então, falou baixo:
— Tem alguma coisa errada.
Davy olhou pra ela.
— O quê?
— Não sei… só… estranho.
Ele franziu o cenho, mas não brincou.
— Ela foi pra onde?
Miguel respondeu:
— Acho que pro corredor lá.
—
Do outro lado da sala, Emerson já estava de pé.
Vitus percebeu na hora.
— Você vai lá, né?
— Ela não voltou.
— E daí?
— E daí que ninguém percebeu.
Vitus soltou um ar pelo nariz.
— Tá bom… eu vou contigo.
—
Sem anunciar, os dois começaram a andar.
—
— Ih, lá vão eles — Ruan comentou.
— Pra onde? — Fael perguntou.
— Corredor.
Letícia já largou o copo.
— Eu vou lá também.
— Claro que vai — Tina disse, indo junto.
—
Davy passou a mão no cabelo, olhando na mesma direção.
— Melhor ver o que é isso.
Luani assentiu.
— É.
—
— Gente… isso tá com cara de problema — Miguel disse.
— Então a gente vai — Fael respondeu, simples.
— Você não ajuda.
— Eu sei.
—
Eduardo hesitou por um segundo.
Depois foi.
— Se der ruim, pelo menos a gente entende o que aconteceu.
—
O grupo foi se formando quase sem perceber.
Como se fosse automático.
—
O corredor era outro mundo.
Mais escuro.
Mais frio.
A música da festa ficava distante, abafada pelas paredes.
—
— Eu já não gostei — Miguel murmurou.
— Fica tranquilo — Fael respondeu, mas ficou mais perto dele.
—
Na frente, Emerson estava parado.
Olhando pra uma porta aberta.
—
Davy chegou ao lado dele.
— Foi aí?
Emerson assentiu.
—
Eduardo falou mais alto:
— Sara? Para de se esconder.
Silêncio.
—
Tina cruzou os braços.
— Se isso for gracinha, eu vou embora.
Nada.
—
Letícia respirou fundo.
— Tá.
E entrou.
—
Os outros foram atrás.
—
A sala era grande.
Escura.
Móveis antigos cobertos com lençóis.
O ar pesado.
—
— Isso aqui tá estranho — Davy disse, baixo.
— Tá mesmo — Luani respondeu.
—
— Sara, sério, já deu — Letícia falou, andando mais pra dentro.
—
Emerson caminhava devagar.
Observando.
—
E então ele parou.
—
— Não.
Baixo.
—
Vitus já ficou tenso.
— O que foi?
—
Emerson não respondeu.
Só apontou.
—
E todo mundo olhou.
—
No fundo da sala.
No chão.
—
Sara Franciele.
—
Por um segundo…
ninguém reagiu.
—
— Ela caiu? — Miguel perguntou.
—
Letícia se aproximou.
Devagar.
—
E parou.
—
— Não.
Agora a voz dela estava diferente.
—
Davy passou por ela.
Abaixou.
Checou rápido.
Pulso.
Respiração.
—
Demorou alguns segundos.
Mas não precisava.
—
Ele levantou o olhar.
Sério.
— Ela morreu.
—
Silêncio.
Total.
—
— Para… — Tina disse. — Isso não tem graça.
— Não é brincadeira — Davy respondeu.
—
Miguel recuou um passo.
— Vey… isso… isso é do jogo?
—
Ninguém respondeu.
—
Porque era óbvio.
—
Não era.
—
Letícia ficou parada, olhando.
O maxilar travado.
— Quem fez isso?
—
Eduardo passou a mão no rosto.
— Isso acabou de dar muito ruim.
—
Ruan olhava fixo.
Sem sorriso.
— Isso não foi acidente.
— Cala a boca — Andressa disse, mas sem agressividade. Só tensa.
—
Luani respirava mais rápido.
— Eu falei que tinha algo errado.
—
Davy ficou em silêncio dessa vez.
Pensando.
Ligando coisas.
—
Vitus olhou pra Emerson.
— Você sabia.
—
Emerson respondeu baixo:
— Não… mas eu senti.
—
O silêncio voltou.
Mais pesado.
Mais real.
—
Porque agora…
não era mais uma festa.
—
Nem um jogo.
—
Era um assassinato.
—
E todo mundo ali…
tinha visto Sara minutos antes.
—
Todo mundo ali…
tinha motivo.
—
E o pior—
alguém daquele grupo…
sabia exatamente o que aconteceu naquela sala.
—
E ainda estava ali.
—
No meio deles.
—
Observando.
CAPÍTULO 5 — NINGUÉM SAI
Ninguém se mexeu.
Nem por um segundo.
Como se qualquer movimento fosse… confirmar aquilo.
O corpo da Sara continuava no chão, iluminado pela própria tela do celular, ainda gravando. A luz tremida refletia nos rostos deles, deixando tudo mais estranho, quase irreal.
A festa continuava lá fora.
Dava pra ouvir o grave.
Risos.
Gente vivendo.
E ali dentro…
silêncio.
—
— A gente precisa chamar a Beck — Tina disse primeiro, a voz baixa, mas firme.
— E falar o quê? — Ruan respondeu. — “Oi, sua festa virou cena de crime”?
— Melhor do que fingir que nada aconteceu — ela rebateu.
— Ninguém tá fingindo nada.
— Você tá bem perto disso.
—
Letícia ainda estava parada, olhando pra Sara.
— Ela não morreu do nada.
— Não — Davy respondeu.
— Então alguém fez.
Silêncio curto.
Pesado.
—
Miguel passou a mão no rosto.
— Vey… isso não tá acontecendo.
— Tá — Eduardo disse. — E a gente precisa pensar direito agora.
— Pensar o quê? Eu quero ir embora.
— E você vai sair explicando isso como? — Eduardo olhou pra ele. — “Foi mal, tinha um corpo lá dentro mas eu só meti o pé”?
Miguel travou.
— Tá… justo.
—
Luani deu alguns passos pra trás, encostando na parede.
— Isso aqui tá errado… muito errado.
Fael ficou perto dela.
— Respira, respira.
— Eu tô tranquila.
— Não tá.
— Eu sei.
—
Enquanto isso, Davy ainda estava abaixado perto do corpo.
Observando.
Com mais calma agora.
— Não tem sangue — ele disse.
Todo mundo olhou.
— O quê? — Letícia perguntou.
— Não tem sinal de luta… nem nada quebrado aqui perto.
— Então como—? — Tina começou.
— Eu não sei ainda — Davy respondeu, sincero. — Mas não parece… impulsivo.
—
— Como assim? — Eduardo perguntou.
— Parece planejado.
Silêncio.
—
Ruan soltou um ar pelo nariz.
— Ótimo. Então a gente tá com um assassino organizado.
— Não ajuda — Andressa disse.
— Eu tô sendo realista.
— Você tá sendo irritante.
—
Vitus cruzou os braços.
— Tá, vamos por partes.
Ele olhou ao redor.
— Quem foi a última pessoa que viu ela?
—
Silêncio.
Um mais pesado dessa vez.
—
Miguel coçou a cabeça.
— Eu vi ela brigando com a Letícia.
Letícia virou na hora.
— E daí?
— Nada, só tô falando.
— Fala direito então.
— Você tava brigando com ela faz tipo… pouco tempo.
— E você tava lá também — Letícia rebateu.
— Mas eu não tava com cara de quem queria matar ela.
— E eu tava?
—
Tensão.
—
Tina entrou no meio.
— Gente, pelo amor de Deus, isso não vai virar briguinha agora.
— Não é briguinha — Letícia respondeu. — É fato.
—
Davy levantou.
— Foco.
Todo mundo ficou quieto.
— A gente precisa organizar isso.
Ele apontou pro corpo.
— Isso aqui aconteceu faz pouco tempo.
— Como você sabe? — Eduardo perguntou.
— O celular ainda tá gravando, a tela não apagou… e o corpo não tá frio ainda.
Miguel fez uma cara de desconforto.
— Vey…
—
— Então — Davy continuou — alguém aqui pode ter visto alguma coisa.
—
— Eu vi ela entrando no corredor — Emerson disse.
Todo mundo olhou pra ele.
— Sozinha.
— Você viu mais alguém? — Vitus perguntou.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
—
Ruan levantou a sobrancelha.
— Então ela entrou sozinha… e morreu aqui dentro?
— Não necessariamente — Davy respondeu. — Alguém pode ter entrado depois.
—
— Tipo quem? — Tina perguntou.
Silêncio.
—
Porque a resposta era óbvia.
—
Qualquer um ali.
—
Eduardo respirou fundo.
— Tá… vamos fazer simples. Quem entrou depois dela?
—
Um por um, eles começaram a se olhar.
Refazendo mentalmente.
—
— Eu fui com vocês — Miguel disse.
— Eu também — Fael completou.
— Eu tava com eles — Tina apontou.
— Eu também — Letícia falou.
— Eu cheguei com a Luani — Davy disse.
— Eu tava com ele — ela confirmou.
—
— Eu tava com a Andressa — Ruan falou.
— Tava — ela confirmou, seca.
—
— Eu fui atrás do Emerson — Vitus disse.
— Eu já tava aqui — Emerson respondeu.
—
Eduardo cruzou os braços.
— E eu vim depois.
—
Silêncio.
—
Davy pensou.
Rápido.
— Então ninguém aqui entrou sozinho.
—
— Isso não prova nada — Andressa disse.
— Não mesmo — Davy concordou. — Só diminui as possibilidades.
—
Letícia soltou uma risada curta, sem humor.
— Que possibilidades? Tá todo mundo aqui, Davy.
—
Ele olhou pra ela.
— Exato.
—
O silêncio voltou.
Mais pesado ainda.
—
— Não — Miguel disse, balançando a cabeça. — Não, não, não… não é ninguém daqui.
— Você tem certeza? — Ruan perguntou.
— Tenho.
— Por quê?
Miguel travou.
— Porque… porque não faz sentido.
—
Eduardo falou, mais baixo dessa vez:
— Faz.
—
Miguel olhou pra ele.
— Não faz.
— Faz sim.
—
E pela primeira vez…
ninguém discordou.
—
Luani fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
E disse:
— A gente não tá sozinho.
—
Todo mundo olhou pra ela.
—
— Tem mais gente nessa casa.
—
Ruan deu um meio sorriso.
— Claro que tem. A festa inteira.
— Não é disso que eu tô falando.
—
Silêncio.
—
Davy olhou pra ela.
— O que você quer dizer?
—
Ela demorou.
Mas respondeu:
— Eu senti antes… e sinto agora.
—
— Para — Miguel disse. — Não fala isso.
—
— Tem alguém aqui… que não devia estar.
—
O ar pareceu pesar.
—
E então—
um barulho.
—
Atrás deles.
—
A porta.
—
Lentamente…
se fechando.
—
Sozinha.
—
Ninguém encostou.
—
O som do “clique” ecoou pela sala.
—
E ninguém precisou dizer em voz alta.
—
Agora…
eles estavam presos ali dentro.
—
Com um corpo.
—
E talvez…
com o assassino.
CAPÍTULO 6 — PORTA FECHADA
O som da porta fechando ainda parecia ecoar na cabeça de todo mundo.
Ninguém falou por alguns segundos.
Como se qualquer palavra fosse… piorar.
—
— Isso foi alguém zoando — Miguel disse, rápido demais.
Ninguém respondeu.
—
— Foi alguém zoando, né? — ele insistiu, olhando de um pro outro.
— Vai lá e abre então — Ruan disse.
Miguel travou.
— Eu… não vou sozinho.
—
Letícia já estava andando.
— Sai da frente.
Ela puxou a maçaneta.
Nada.
—
— Tá trancada — ela disse.
— Deixa eu ver — Davy foi até a porta.
Tentou.
Forçou um pouco mais.
Nada.
—
— Não é só trancada — ele falou. — Tá travada.
— Como assim travada? — Tina perguntou.
— Tipo… não abre por dentro.
—
— Ah não, vey — Miguel começou a andar de um lado pro outro. — Não, não, não… isso já virou coisa de filme ruim.
— Para de andar — Andressa disse. — Tá me irritando.
— Eu tô nervoso!
— Eu também tô.
— Então por que você tá calma?
— Eu não tô calma.
Silêncio.
—
Eduardo passou a mão no rosto.
— Tá, alguém aqui precisa pensar direito.
— Você pensa então — Letícia disse.
— Eu tô pensando.
— Então fala.
—
Ele olhou pra porta.
Depois pro corpo.
Depois pras pessoas.
— Isso aqui não foi aleatório.
—
— A gente já entendeu essa parte — Ruan respondeu.
— Não, tipo… tudo isso.
Ele apontou ao redor.
— A festa, o jogo, a porta…
— Você acha que tá conectado? — Davy perguntou.
— Eu acho que pode estar.
—
Emerson, até então quieto, falou:
— Está.
—
Todo mundo olhou.
—
Vitus franziu o cenho.
— Você tá com muita certeza pra quem “não sabia de nada”.
—
Emerson ignorou.
O olhar dele estava no chão.
Mais especificamente…
no celular da Sara.
—
— O jogo não começou agora — ele disse.
—
Um silêncio pesado caiu.
—
— Como assim? — Tina perguntou.
—
Emerson apontou pro celular.
— Isso tá gravando desde antes dela entrar aqui.
—
Davy se aproximou.
Pegou o celular com cuidado.
Olhou a tela.
— Ele tá certo.
—
— E daí? — Letícia perguntou.
— Daí que… — Davy deslizou o dedo na tela — a gente pode ver o que aconteceu.
—
O clima mudou.
Na hora.
—
— Então vê — Ruan disse.
—
Davy hesitou.
— Vocês têm certeza?
—
— Eu não quero ver isso — Luani disse, mais baixa.
—
— Mas a gente precisa — Eduardo respondeu.
—
Silêncio.
—
Davy deu play.
—
O vídeo começou.
—
Imagem tremida.
Sara andando pelo corredor.
Falando com o celular.
— Gente, eu juro, essa casa tem uns lugares muito estranhos—
A voz dela ecoava na sala.
Agora… morta.
—
— Se eu sumir, já sabem quem foi — ela riu.
—
Miguel desviou o olhar.
—
No vídeo, ela entrou na sala.
Exatamente onde eles estavam agora.
—
— Tá vazio… — a voz dela continuava.
Ela girou a câmera.
Mostrando os móveis.
As paredes.
O chão.
—
Nada.
—
— Eu vou explorar mais—
—
O vídeo cortou um pouco.
Como se tivesse travado.
—
— Que isso? — Eduardo falou.
—
Davy voltou alguns segundos.
Deu play de novo.
—
A imagem tremia.
Chiava.
—
E então…
por um frame.
Muito rápido.
—
Uma sombra.
—
Atrás dela.
—
— Vocês viram isso? — Tina disse.
—
— Volta — Letícia falou na hora.
—
Davy voltou.
Frame por frame.
—
E lá estava.
—
Uma silhueta.
—
Parada.
—
Atrás da Sara.
—
Mas…
não dava pra ver o rosto.
—
— Isso não prova nada — Andressa disse, mas a voz não tava firme.
—
— Continua — Vitus falou.
—
Davy deu play.
—
No vídeo, Sara não percebe.
Continua falando.
—
— Ai, gente, eu juro, eu sou muito corajosa—
—
A sombra se move.
—
Mais perto.
—
Miguel deu um passo pra trás.
— Vey…
—
O vídeo treme.
—
E então—
—
A tela fica preta.
—
Mas o áudio continua.
—
Um barulho.
—
Como algo sendo puxado.
—
Um som abafado.
—
E depois…
silêncio.
—
O vídeo termina.
—
Ninguém falou.
—
Ninguém se mexeu.
—
— Tinha alguém aqui — Fael disse, baixo.
—
— Tinha — Davy confirmou.
—
— E não era a gente — Miguel completou.
—
Silêncio.
—
Ruan passou a mão no cabelo.
— Então tem mais alguém nessa casa.
—
— Ou tinha — Tina disse.
—
Letícia olhou ao redor.
Mais atenta agora.
— Não… ainda tem.
—
O ar parecia mais pesado.
—
Mais apertado.
—
Eduardo falou, mais sério do que antes:
— A gente precisa sair daqui.
—
— Óbvio — Andressa respondeu.
—
— Não, tipo… agora.
—
— Então abre a porta — Ruan disse.
—
— Eu não consigo.
—
— Então quebra.
—
— Com o quê?
—
Silêncio.
—
Miguel olhou ao redor.
— Tem alguma coisa aqui…
—
E então—
—
Emerson falou.
—
Baixo.
—
Quase como se estivesse pensando em voz alta.
—
— A gente não devia ter vindo junto.
—
— O quê? — Vitus perguntou.
—
Ele levantou o olhar.
—
E dessa vez…
tinha medo.
De verdade.
—
— Era pra gente se separar.
—
Um silêncio gelado caiu.
—
— Por quê? — Tina perguntou.
—
Ele demorou.
—
Mas respondeu:
—
— Porque agora…
—
Ele olhou ao redor.
Um por um.
—
— Se alguém daqui for o assassino…
—
Ninguém respirava.
—
— …ninguém tem como provar nada.
—
O impacto veio devagar.
Mas veio forte.
—
Letícia foi a primeira a reagir.
— Então fala logo.
—
Silêncio.
—
— Quem você acha que foi?
—
Todos olharam pra Emerson.
—
Esperando.
—
E pela primeira vez…
ele hesitou.
—
— Eu não sei.
—
Mas alguém ali…
sabia.
—
E estava ouvindo tudo.
—
Em silêncio.
CAPÍTULO 7 — PRIMEIRA RACHADURA
O silêncio depois do vídeo não foi só pesado.
Foi desconfiado.
Cada um ali começou, mesmo sem querer, a olhar diferente pro outro.
Como se estivesse tentando enxergar além da fantasia.
Além da amizade.
—
Letícia foi a primeira a quebrar isso.
— Tá bom. Chega.
Todo mundo olhou.
— A gente não vai ficar rodando em círculo fingindo que tá tudo bem.
— Ninguém tá fingindo — Tina respondeu.
— Então vamos falar direito.
Ela cruzou os braços.
— Alguém aqui matou ela.
Direto.
Sem suavizar.
—
Miguel soltou uma risada nervosa.
— Vey… você fala isso assim, na cara?
— Eu falo.
— A gente se conhece.
— Justamente.
Silêncio.
—
Ruan inclinou a cabeça.
— Você tá olhando pra alguém específico ou só jogando isso no ar?
— Se eu tivesse certeza, já tinha falado.
— Mas você suspeita.
— Todo mundo aqui suspeita.
—
Ninguém negou.
—
Davy respirou fundo.
— Vamos organizar isso.
— De novo isso — Andressa murmurou.
— É o único jeito de não virar caos — ele respondeu.
Ela não rebateu.
—
— A gente sabe algumas coisas — Davy continuou. — Ela entrou sozinha. Tinha alguém aqui dentro antes da gente chegar.
— Ou entrou depois — Eduardo disse.
— Sim.
— E esse alguém… não apareceu ainda.
—
— Ou apareceu — Tina falou.
O grupo ficou em silêncio.
—
— Como assim? — Fael perguntou.
—
Tina deu de ombros.
— A gente não viu o rosto da sombra.
— Tá querendo dizer o quê? — Letícia perguntou.
— Nada. Só que… a gente não sabe de nada.
—
Eduardo assentiu devagar.
— Ela tem um ponto.
—
Miguel olhou de um pro outro.
— Eu não gosto desse rumo.
—
— Ninguém gosta — Vitus respondeu.
—
Um silêncio curto.
E então—
—
— Eu vi alguém.
—
A voz veio baixa.
Mas suficiente pra cortar tudo.
—
Todos olharam.
—
Luani.
—
Davy virou pra ela.
— O quê?
—
Ela parecia hesitar.
Mas continuou.
— Antes da gente vir pra cá.
—
— Onde? — Letícia perguntou.
—
— Perto do corredor.
—
— Quem? — Ruan perguntou.
—
Luani respirou fundo.
— Eu não vi direito.
— Mas?
—
Silêncio.
—
— Parecia… alguém de preto.
—
Todo mundo ali estava de preto.
Ou quase.
—
Miguel soltou um “ah não” baixo.
—
— Isso não ajuda em nada — Andressa disse.
—
— Eu sei — Luani respondeu. — Eu só… lembrei agora.
—
Davy passou a mão no rosto.
Pensando.
—
— Tinha alguma coisa diferente?
—
Ela demorou.
—
— A forma de andar.
—
— Como assim? — Eduardo perguntou.
—
— Meio… calma demais.
—
Silêncio.
—
— Todo mundo aqui tava meio normal antes — Tina disse.
—
— Não todo mundo — Vitus falou.
—
Os olhares começaram a se cruzar.
—
Mais atentos.
—
Mais perigosos.
—
— Tá — Ruan disse. — Isso já tá indo pra um lugar chato.
—
— Sempre foi — Letícia respondeu.
—
— Não, tipo… agora a gente vai começar a apontar dedo.
—
— E você tá com medo disso? — Andressa perguntou.
—
— Não. Só acho que vai ficar feio.
—
— Já ficou.
—
Silêncio.
—
E então—
—
— Espera.
—
Eduardo falou.
—
Ele tava olhando pro celular ainda na mão do Davy.
—
— Volta um pouco o vídeo.
—
— Pra quê? — Davy perguntou.
—
— Só volta.
—
Davy obedeceu.
Voltou alguns segundos antes da sombra aparecer.
—
— Para aí.
—
Ele parou.
—
Eduardo se aproximou.
—
— Dá zoom.
—
— Tá ruim a qualidade — Davy avisou.
—
— Eu sei, só tenta.
—
Davy aproximou.
A imagem ficou granulada.
Mas ainda dava pra ver.
—
A sombra.
De novo.
—
— Olha isso — Eduardo disse.
—
— O quê? — Tina perguntou.
—
— A altura.
—
Silêncio.
—
Todos olharam melhor.
—
— Não é tão alto — ele continuou.
—
Miguel arregalou os olhos.
— Vey…
—
— E não é baixo também — Letícia disse.
—
— Tá no meio — Vitus completou.
—
— Ou seja… — Ruan começou.
—
— Pode ser qualquer um daqui — Andressa finalizou.
—
O clima piorou.
—
Muito.
—
Miguel deu um passo pra trás.
— Isso não tá certo.
—
— Claro que não tá — Letícia respondeu.
—
— Não, tipo… isso aqui tá muito… perfeito.
—
Silêncio.
—
— Perfeito? — Davy perguntou.
—
— É — Miguel disse. — Tipo… parece que alguém queria isso.
—
Ninguém riu.
—
Porque ninguém conseguiu.
—
Eduardo falou baixo:
— O jogo.
—
— O quê? — Fael perguntou.
—
— O jogo começou antes.
—
Silêncio.
—
— A Beck… — Tina começou.
—
— Não — Letícia cortou. — Não viaja.
—
— Eu não tô viajando — Eduardo respondeu. — Ela que organizou tudo.
—
— Isso não significa nada.
—
— Significa que ela controla o ambiente.
—
Davy olhou pra ele.
Pensando.
—
Mas antes que pudesse falar—
—
Um barulho.
—
Do lado de fora da sala.
—
Passos.
—
Lentos.
—
Parando na porta.
—
Ninguém respirou.
—
A maçaneta mexeu.
—
Uma vez.
—
Duas.
—
Mas não abriu.
—
E então…
silêncio.
—
Miguel sussurrou:
— Vey…
—
Ninguém respondeu.
—
Porque todos estavam pensando a mesma coisa.
—
Alguém estava do outro lado.
—
E sabia exatamente onde eles estavam.
CAPÍTULO 8 — ACUSAÇÕES
Ninguém se mexeu.
A maçaneta tinha parado.
Mas a sensação de presença… não.
Ela ficou ali.
Pesada.
Respirando junto com eles.
—
Miguel foi o primeiro a ceder.
— Vey… alguém abre essa porta logo.
— Vai você — Ruan respondeu, cruzando os braços.
— Ah, claro, eu vou lá morrer rapidinho e já volto.
— Drama.
— Drama é você estar vivo ainda, inclusive.
—
— Chega — Letícia cortou, já irritada. — Isso não é hora.
—
Ela foi até a porta.
Sem pedir opinião.
Sem hesitar.
Girou a maçaneta de uma vez.
Abriu.
—
O corredor.
Vazio.
—
Nenhum som.
Nenhuma sombra.
Nada.
—
— Ótimo — ela murmurou. — Agora a gente também tem um fantasma andando por aí.
—
— Ou alguém muito esperto — Davy disse.
—
Letícia fechou a porta devagar.
Mas dessa vez, trancou.
—
— Ninguém entra. Ninguém sai.
—
— A gente tá preso então? — Fael perguntou.
—
— A gente já tava.
—
Silêncio.
—
E então…
a tensão explodiu.
—
— Eu não confio nisso — Andressa disse, seca.
—
— Disso o quê? — Tina perguntou.
—
— Disso tudo.
Ela olhou ao redor.
— Essa sala, esse vídeo, esse “jogo”…
—
— Ninguém aqui confia — Vitus respondeu.
—
— Eu confio em alguns.
—
Silêncio.
—
— Fala — Ruan disse. — Quero ver.
—
Andressa cruzou os braços.
— Eu confio no Ruan.
—
Ruan levantou uma sobrancelha.
— Justo.
—
— E no Davy.
—
Davy assentiu, meio surpreso.
—
— O resto…
Ela deu de ombros.
— Eu penso.
—
— Ah, que lindo — Eduardo comentou. — Ranking de confiança agora.
—
— Quer subir na lista? — ela respondeu.
—
— Depende, tem prêmio?
—
— Eduardo — Letícia falou, já sem paciência.
—
Ele levantou as mãos.
— Tá, parei.
—
Mas o clima já tinha mudado.
Agora era pessoal.
—
— Então vamos fazer isso direito — Letícia disse. — Já que ninguém confia em ninguém.
—
— Lá vem — Miguel murmurou.
—
— Cada um fala onde tava.
—
— Ah não — Tina soltou.
—
— Sim.
—
— Isso é interrogatório agora?
—
— É sobrevivência.
—
Silêncio.
—
— Eu começo — Letícia disse. — Eu tava com a Tina e o Eduardo na área externa.
—
— Verdade — Eduardo confirmou.
— A gente tava falando de fantasia ruim e julgando os outros.
—
— Normal — Tina completou.
—
— Depois a gente se separou — Letícia continuou. — Eu fui pegar bebida.
—
— Eu fui atrás de você depois — Eduardo disse.
—
— Não achei — Letícia respondeu.
—
Silêncio curto.
—
— Próximo — ela disse.
—
Ruan deu um passo à frente.
— Eu tava fumando lá fora.
—
— Sozinho? — Davy perguntou.
—
— Sim.
—
— Ninguém viu?
—
— Não.
—
— Conveniente — Andressa comentou.
—
Ruan olhou pra ela.
— Você acredita em mim.
—
Ela sustentou o olhar.
— Eu acredito.
—
Silêncio estranho.
—
— Tá — Letícia disse. — Próximo.
—
— Eu e o Fael — Miguel levantou a mão. — A gente tava dançando.
—
— Muito mal, inclusive — Fael disse.
—
— Mentira, eu tava entregando tudo.
—
— Você tava entregando vergonha.
—
Mesmo com tudo… alguém soltou uma risada fraca.
—
Mas passou rápido.
—
— A gente não saiu de lá — Fael completou.
—
— Ok — Letícia disse.
—
— Eu tava com a Luani — Davy falou.
—
— Sim — ela confirmou. — A gente ficou perto da escada.
—
— E você viu a pessoa de preto — Letícia lembrou.
—
— Vi.
—
— Mas não falou na hora.
—
Silêncio.
—
Luani hesitou.
— Eu… não achei que fosse importante.
—
— Agora é — Andressa disse.
—
— Eu sei.
—
—
— Próximo.
—
— Eu tava com o Emerson — Vitus disse.
—
Todos olharam.
—
Mas Emerson não respondeu.
—
Ele estava no canto da sala.
Encostado na parede.
Quieto.
Observando.
—
— Emerson? — Letícia chamou.
—
Ele demorou.
Mas respondeu.
—
— Tava.
—
— Só isso? — Eduardo perguntou.
—
— Só isso.
—
Silêncio.
—
— Você viu alguma coisa? — Davy perguntou.
—
Emerson olhou pra ele.
—
E por um segundo…
pareceu que ia falar.
—
Mas não falou.
—
— Não.
—
Mentira.
—
E todo mundo sentiu.
—
—
— Falta você — Letícia disse, olhando pra Andressa.
—
— Eu tava sozinha.
—
— Claro — Tina murmurou.
—
Andressa virou na hora.
— Quer repetir?
—
— Não, obrigada.
—
— Então cala a boca.
—
— Gente — Davy tentou intervir.
—
— Não — Andressa cortou. — Já que é pra jogar limpo.
—
Ela deu um passo à frente.
—
— Eu tava sozinha, sim.
—
Silêncio.
—
— E você tava onde, Tina?
—
O clima virou.
—
— Com o Eduardo — ela respondeu.
—
— Depois não.
—
Silêncio.
—
— Você sumiu.
—
Tina travou por um segundo.
—
Letícia percebeu.
— Tina?
—
— Eu fui no banheiro.
—
— Sozinha?
—
— Sim.
—
— Demorou quanto tempo? — Davy perguntou.
—
— Eu não cronometrei, Davy.
—
— Mas demorou.
—
Silêncio.
—
— Vocês tão insinuando o quê? — Tina perguntou.
—
— Nada — Andressa respondeu. — Só perguntando.
—
— Perguntando muito.
—
— Porque você tá nervosa?
—
— Eu não tô nervosa!
—
— Tá sim.
—
— ANDRESSA.
—
Letícia levantou a voz.
—
Silêncio.
—
Pesado.
—
— Chega.
—
Mas já era tarde.
—
A dúvida já tinha sido plantada.
—
Miguel olhou pra Tina.
Confuso.
—
— Tina…?
—
Ela desviou o olhar.
—
— Eu não fiz nada.
—
Ninguém respondeu.
—
Porque o problema…
não era mais o que foi dito.
—
Era o que ficou no ar.
—
—
E então…
—
Um som.
—
Dentro da sala.
—
Não da porta.
—
Não do corredor.
—
De dentro.
—
Um leve…
clique.
—
Todos congelaram.
—
Davy olhou devagar.
—
Para o projetor.
—
Que estava desligado.
—
Ou deveria estar.
—
A luz vermelha piscava.
—
E então…
ligou.
—
Sozinho.
—
A parede iluminou.
—
Novo vídeo.
—
Mas dessa vez…
não era Sara.
—
Era…
alguém da sala.
—
A gravação tremida mostrava um corredor.
Escuro.
—
E uma pessoa.
—
Parada.
—
O rosto…
coberto.
—
Mas a fantasia…
inconfundível.
—
Todo mundo virou ao mesmo tempo.
—
Para a pessoa real.
—
Na sala.
—
Que usava exatamente a mesma fantasia.
—
—
Silêncio absoluto.
—
Agora…
não era mais teoria.
—
Era alguém dali.
CAPÍTULO 9 — O PRIMEIRO SUSPEITO
O vídeo travou por alguns segundos.
Tempo suficiente.
Pra todo mundo reconhecer.
—
A fantasia.
—
Um casaco escuro, longo… com detalhes vermelhos sutis.
Máscara parcial.
Elegante.
Fria.
—
Todos olharam.
Devagar.
—
Para a mesma pessoa.
—
Vitus.
—
O silêncio foi tão pesado que parecia empurrar o ar pra fora da sala.
—
Vitus não se mexeu.
Mas também não tentou disfarçar.
—
— Ah… — Miguel soltou, quase rindo de nervoso. — Tá de sacanagem.
—
— Isso não prova nada — Vitus disse, calmo.
—
— Não? — Tina respondeu. — Porque parece provar bastante coisa.
—
— Parece.
—
— É literalmente você — Fael disse.
—
— É alguém com a mesma fantasia.
—
— Que é você.
—
— Ou alguém que quis parecer comigo.
—
Silêncio.
—
Ele não elevou a voz.
Não tentou fugir.
Isso, por si só, já incomodava.
—
Letícia deu um passo à frente.
— Onde você tava exatamente?
—
— Eu já falei.
—
— Fala de novo.
—
Vitus suspirou.
—
— Com o Emerson.
—
Todos olharam.
—
Emerson continuava no canto.
Quieto.
—
— Confirma? — Letícia perguntou.
—
Silêncio.
—
— Emerson?
—
Ele demorou.
De novo.
—
— Confirmo.
—
Mas dessa vez…
ninguém acreditou.
—
— Vey… — Eduardo passou a mão no cabelo. — Isso tá muito estranho.
—
— Tá mesmo — Davy disse. — Porque o vídeo não mente.
—
— Vídeo pode mentir — Vitus respondeu.
—
— Como?
—
— Corte. Ângulo. Tempo.
—
Davy ficou em silêncio.
Analisando.
—
— Você é inteligente demais pra alguém que “não sabe de nada” — Andressa disse.
—
— Eu nunca disse que não sabia.
—
Silêncio.
—
— Então sabe o quê? — Ruan perguntou.
—
Vitus olhou pra ele.
—
— Que alguém quer que a gente se vire um contra o outro.
—
— Parabéns, Sherlock — Miguel murmurou.
—
— Eu tô falando sério.
—
— E a gente também — Letícia respondeu. — Você aparece num vídeo no corredor onde a Sara morreu.
—
— Não mostra ela.
—
— Mostra o lugar.
—
— Não mostra o momento.
—
— Para de se defender tecnicamente! — Tina explodiu. — Você tava lá!
—
Silêncio.
—
Pela primeira vez…
Vitus hesitou.
—
Um segundo só.
—
Mas suficiente.
—
— Eu tava no corredor, sim.
—
O ar ficou pesado.
—
— Quando? — Davy perguntou.
—
— Antes.
—
— Antes de quê?
—
— Antes de vocês chegarem lá.
—
— E por que você não falou isso antes? — Letícia perguntou.
—
Silêncio.
—
— Porque eu sabia que isso ia acontecer.
—
— Isso o quê? — Fael perguntou.
—
— Isso aqui.
Ele abriu os braços.
— Vocês apontando pra mim.
—
— E você preferiu mentir? — Davy perguntou.
—
— Preferi evitar.
—
— Evitar o quê? — Andressa disse. — Ser suspeito ou ser culpado?
—
Silêncio.
—
Vitus não respondeu.
—
E isso…
falou muito mais do que qualquer coisa.
—
—
Miguel começou a andar de um lado pro outro.
— Não, não, não… isso não tá certo.
—
— O quê? — Eduardo perguntou.
—
— O Vitus matar alguém? Vey, ele nem levanta a voz direito.
—
— Isso não significa nada — Letícia disse.
—
— Significa um pouco.
—
— Assassino não tem cara — Davy respondeu.
—
Silêncio.
—
— E outra — Davy continuou. — Ele admitiu que tava no corredor.
—
— Antes — Vitus reforçou.
—
— Sozinho.
—
— Sim.
—
— Conveniente de novo — Andressa disse.
—
—
— Eu tenho uma pergunta — Ruan falou.
—
Todos olharam.
—
— Se você tava lá… você viu a Sara?
—
Silêncio.
—
Vitus travou.
—
E dessa vez…
não conseguiu esconder.
—
— Vi.
—
O clima mudou na hora.
—
— Viu? — Tina repetiu. — E não falou?
—
— Ela tava viva.
—
— E você saiu? — Letícia perguntou.
—
— Saí.
—
— Deixou ela sozinha?
—
— Sim.
—
— Por quê?
—
Silêncio.
—
— Porque ela não tava sozinha.
—
—
O coração de todo mundo pareceu parar por um segundo.
—
— O quê? — Davy perguntou.
—
— Tinha alguém com ela.
—
— Quem?
—
Silêncio.
—
— Eu não vi o rosto.
—
— Mentira — Andressa disse na hora.
—
— Eu não vi.
—
— Ou não quer falar.
—
— Eu não vi.
—
Silêncio.
—
— Mas você viu alguma coisa — Davy insistiu.
—
Vitus respirou fundo.
—
— A fantasia.
—
— Qual? — Letícia perguntou.
—
Silêncio.
—
Vitus olhou lentamente…
—
…para alguém do grupo.
—
—
E nesse exato momento—
—
A porta.
—
BATEU.
—
Com força.
—
Todo mundo se assustou.
—
— CARALHO — Miguel gritou.
—
A maçaneta começou a girar desesperadamente.
—
Alguém tentando entrar.
—
Com força.
—
— Segura! — Letícia gritou.
—
Ruan e Davy correram pra porta.
Seguraram.
—
A maçaneta girando.
Mais forte.
—
— Tem alguém aí! — Fael gritou.
—
— ÓBVIO QUE TEM — Eduardo respondeu.
—
O barulho parou.
—
Do nada.
—
Silêncio.
—
Pesado.
—
E então…
—
Uma voz.
—
Do outro lado.
—
Baixa.
—
Distorcida.
—
— Vocês estão jogando errado.
—
Ninguém respirou.
—
— Não é sobre quem estava lá.
—
Silêncio.
—
— É sobre…
—
Uma pausa.
—
— Quem queria que ela morresse.
—
—
E passos.
Se afastando.
—
Lentos.
—
Sumindo.
—
—
Dentro da sala…
ninguém falou nada.
—
Porque agora…
a suspeita tinha mudado.
—
E piorado.
—
Muito.