Já fazem 8 anos desde que eu visitei a pacata cidade de Araruama, no interior do Rio de Janeiro. A cidade, a primeira vista, não parece guardar os horrores que, com paciência e curiosidade o suficiente, você descobre.

Aos primeiros dias de maio de 1956, Araruama ainda carregava o peso do seu passado, como se o tempo posse uma areia que nunca de esvai. Naquele ano, Helena, aluna de um dos colégios mais renomados da pequena cidade, sumiu sem deixar rastros.

Ela era invisível aos olhos da maioria, incluindo aos meus. Era como se ela fosse um vento pálido, passando pelas frestas, com seus olhos sem vida e o cabelo negro sempre embaraçado. Ela não era bonita, na verdade, era estranha. A pouca atenção que conseguia chamar era fruto da sua estranheza. Algumas vezes cheguei a ver alguns alunos com ela, possivelmente eram amigos, talvez porque no silencio dela havia uma espécie de tristeza compartilhada.

Quando ela sumiu, ninguém entendeu de pronto. As aulas seguiram, não haviam burburinhos sobre onde estaria a esquisita filha dos Monteiro que, diga-se de passagem, eram igualmente estranhos. Só depois de longas semanas é que a falta dela começou a pesar. Era um misto de curiosidade e medo, porque ninguém sabia ao certo quando ela tinha sumido, ou o que havia acontecido.

Era de conhecimento geral que os Monteiro, uma família discreta, era ligada a uma seita que sussurrava no anonimato. As más línguas diziam que, a cada domingo, eles se reuniam no porão da enorme mansão situada na orla da Lagoa para seus secretos rituais. Eu achava que isso tudo não passava de uma lenda urbana ridícula pra tentar justificar a esquisitice dessa família, até tudo acontecer.

Durante as buscas, os pais de Helena, que pareciam figuras distantes, sem amigos ou conexões na cidade, ficaram assustadoramente alheios. Uma semana depois que a polícia havia se envolvido, os Monteiro simplesmente desapareceram. Ninguém sabia para onde eles tinham ido, se tinham ido para o interior ou para uma cidade ainda menor.

As buscas continuaram durante duas ou três semanas, até que finalmente a encontraram. O corpo de Helena foi localizado em um emaranhado de mato que crescia alto nos fundos da mata de um dos maiores condomínios da cidade. No centro de uma clareira, as pessoas viram o chão queimado, um pentagrama frágil desenhado na grama, e ali, no centro, o corpo dela se encontrava intacto. Sem nenhum sinal de decomposição, só a pele fria, pálida e com seus olhos fechados.

Após a autopsia, descobriram que em seu interior não havia nada. Nada além de palha. O que restava era seu cérebro, que ainda estava lá como se fosse a única centelha daquilo que ela foi, e o resto, um vazio oco e desconcertante.

A casa, depois disso, ficou abandonada por anos, um espectro de um passado que ninguém conseguia explicar. Quem passava na frente quando a noite caía, dizia ver sombras passando pelas janelas quebradas e sujas e sentia a energia ficar tão pesada que quase era possível sentir fisicamente seu peso. Hoje em dia a casa tem novos moradores e foi reformada, quem olha de longe não imagina o que aquela construção carrega consigo. A nova família, que é o completo oposto dos Monteiro, relata que coisas estranhas ainda acontecem lá, como uma sombra de um passado que não vai embora tão cedo.

Mesmo após 8 anos e com novos moradores, se você passar em frente a casa ao anoitecer e prestar atenção, é possível ouvir sussurros abafados do que um dia foi a voz de Helena.