Minha vida amorosa nunca foi lá essas coisas. Cheia de loucuras inconsequentes, objetos voadores não identificados e, muitas vezes, com suas coordenadas geográficas apontando para o mundo das ideias de Platão.
E, como qualquer ser humano que tenha vivido meia dúzia de frustrações na vida amorosa, por muito tempo, isso foi motivo de uma tristezinha tímida no plano de fundo da alma… Afinal, quem nunca sonhou com um amorzinho pra se sentir “completo”? Porém, o cenário começou a mudar quando eu comecei a me atentar para o viés alquímico da vida. Sim, alquímico.
Não que eu tenha deixado de querer encontrar uma pessoa que traga um êxtase iningualável ao meu coração, mas desde que comecei a estudar alquimia por um viés psicológico, uma das coisas que mais me chamou atenção foi a união dos opostos - luz e sombra, bom e mau, feminino e masculino - união esta que trata do indivíduo no processo denominado pela psicologia analítica de individuação. Carl Gustav Jung foi o responsável por constatar a presença e atuação destas energias na nossa psique, onde possuímos ambas em nossa composição, independente de qual gênero esteja expresso no corpo.
Ao longo do tempo, pude começar a perceber o quanto que o trabalho para equilibrar estas energias em nossa vida é recompensador. Quando o feminino e masculinos internos estão em harmonia, fazemos melhores escolhas e a razão e a emoção deixam de brigar entre si. É uma longa jornada, mas é também emancipadora. Requer estudo e dedicação, auto-observação, paciência. Mas vale a pena. Lembra quando, no livro de Gênesis, diz-se que “aonde estiver o homem e a mulher unidos, ali Deus estará presente”? Pois bem, fizeram toda uma lavagem cerebral midiática pra te fazzer pensar que isso era literal; que se tratava do casamento enquanto instituição heterossexual, dando margem pra toda uma sociedade de ignorâncias. E aí que entra o viés alquímico.
Quando alcançamos a compreensão de que quando essa união acontece internamente, algo se acende - uma espécie de luz. Algo novo nasce, uma nova vida. Afinal, o que acontece quando arquetipicamente temos a união/fusão entre um homem e uma mulher? Isso, uma nova vida em potencial. Dessa forma, viver essa jornada é em si a nossa autogeração ao passo que dançamos pela constante transformação silenciosa que é a vida e sua impermanência. Anicca, como disse Sidarta Gautama, o Buda. E eu também diria que algo aScende, pois pegando carona no recorte asiático onde chegamos agora, podemos também denominar essa luz de Kundalini: uma serpente de energia que reside na base da coluna e que está destinada a se elevar pelos nossos demais centros energéticos. E não é de hoje que a serpente é conhecida como símbolo de poder, vide a cultura egípcia ou mesmo a supracitada cultra védica. Só para o ocidente que a serpente foi demonizada, sabemos bem por quai$ motivo$ e pelos interesses de quem.
Sendo assim, se torna possível inferir o fato de que, quando não temos essas energias (yin/yang) sob observação consciente, se não buscamos manter o equilíbrio destas duas forças, funcionamos a partir de um modo menos autônomo e mais condicionado. O elemento da criatividade se torna menos acessível e a vida parece ser governada muito mais por situações externas do que pela sabedoria interior. O que certamente se reflete nos relacionamentos: provavelmente sendo estes no estilo “metades da laranja”, uma vez que ninguém está inteiro quando inconsciente do seu oposto. E aí tudo se torna sobre poder. O frenesi vampírico do poder. No sentido de “eu tenho poder sobre o outro", olha como ela fica quando eu olho pra ela assim” ou “eu tenho medo do que eu posso perder se eu for poderosa então eu entrego meu poder pra ele porque assim vou ‘poder’ continuar sendo uma vítima” - óbvio, tudo isso de forma inconsciente, apenas porque ninguém está acessando seu próprio poder verdadeiro que vem da união entre o feminino e masculino interiores.
“Sweet dreams are made of this, who am I to disagree? Travel the world and the seven seas, everybody is looking for something. Some of them wants to use you, some of them wants to be used by you. Some of them wants to abuse you, some of them wants to be abused…”